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calvino: se numa noite
rosas
innersmile
Italo Calvino: "ler significa despir-se de todas as intenções e de todos os preconceitos, para ficar pronto a acolher uma voz que se faz ouvir quando menos se espera, uma voz que não se sabe de onde vem, de um lugar qualquer para além do livro, para além do autor, para além das convenções da escrita: do não dito, do que o mundo ainda não disse de si e ainda não tem palavras para dizer"
E foi precisamente esse milagre que aconteceu, mais uma vez! Terminei ontem a leitura de SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE. Há já algum tempo que um livro não me tocava tão profundamente (é relativamente frequente ser tocado pela poesia, mas são já raras as obras de ficção que têm esse poder de me atingir em cheio, assim de cabeça lembro-me do Adriano da Yourcenar e o Ricardo Reis do Saramago; outros haverá, certamente, mas estes são os que me vêm imediatamente à cabeça quando penos nos "meus" livros).
O livo de Calvino é uma obra radical, um clássico naquelas duas caracteristicas que obrigatoriamente um livro tem de ter para o ser: reflectir (quer no sentido de "espelhar" quer no de "pensar sobre") o tempo em que foi escrito (e, para quem se lembre do ambiente político do mundo nos anos 70 da guerra fria, da espionagem entre os blocos e dos terrorismos vários, nomeadamente dos estados ocidentais, Se Numa Noite... é um retrato impiedoso e mordaz), e, por outro lado, "tocar" aquilo que há de perene na natureza humana (outra citação: "o sentido último para que remetem todas as estórias tem duas faces: a continuidade da vida e a inevitabilidade da morte").
Escrito com um humor desarmante (a um tempo irónico e terno) e com um enorme sentido da beleza (alguns dos 'primeiros capítulos' são, por si, verdadeiras obras de arte), o livro é, simultaneamente, um ensaio sobre o fascinio do livro, da leitura e da escrita, uma obra de fantasia, uma fábula em tom de thriller de espionagem, que mete intrigas internacionais, revoluções e contra-revoluções, missões secretas, e, naturalmente, uma história de amor entre duas pessoas que se conhecem através de um livro cuja leitura não conseguem concluir.