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horácio tavares de carvalho: inquérito póstumo
rosas
innersmile
Peguei num livro que li quando tinha 19 anos. Lá está, na primeira página, como inscrevia então (agora passei para a página de capa), por baixo de uma assinatura parva, "Coimbra, Junho 1981". Chama-se 'Inquérito Póstumo', e foi escrito por Horácio Tavares de Carvalho, que, tanto quanto sei, escreveu apenas mais dois livros, todos publicados no início dos anos 80. Lembro-me de que foi Governador-Civil, em Faro, penso eu, e depois disso perdi completamente o seu rasto. Mas este 'Inquérito Póstumo' foi um livro que me deixou uma marca profundo, tão profunda que eu hoje recordo melhor a importância decisiva que o livro teve para mim do que propriamente o livro em si. Bem, claro que me lembro de que o livro consta de um inquérito póstumo que um jornalista realiza por conta de um jornal ou de uma revista para refazer biograficamente a vida de um seu amigo recentemente falecido. Acho que, na altura, me apaixonei por Luis Echevarria, o 'morto', ou melhor, que me apaixonei pela sua vida. Era aquela a vida que eu queria para mim, ou, pelo menos, era na matriz de uma vida assim que eu queria inscrever a minha.
Já escrevi aqui que uma das vantagens de sublinhar os livros é que nos podemos ler (podemos ler quem éramos) através dessas frases que nos tocaram mais quando lemos um livro. E neste 'Inquérito' encontrei uma dessas frases sublinhadas: "Não mudaria um milímetro do curso da minha vida se a pudesse recomeçar"! Consigo resistir a ser cínico perante quem, com a novidade dos dezanove anos, admitia já a hipótese de uma reedição, revista e aumentada. E resisto porque a ingenuidade que me tocou não foi a de eu, aos dezanove anos, estar tão seguro de que as minhas opções eram as correctas; o que me comoveu foi a minha ignorância, na altura, de que não somos nós que temos o poder de mudar o curso da nossa vida; é antes o curso da nossa vida que tem o poder de nos mudar (e vários metros, de resto, e não apenas uns modestos milímetros) a nós.
Já estava a escrever esta entrada, fui à procura dos outros livros de Horácio Tavares de Carvalho, 'Cavatina' e '485224'. E, curiosamente, foi no primeiro destes dois livros do mesmo autor que encontrei a resposta, sublinhada numa fase em que eu já tinha mudado alguns quilómetros por via de alterações inesperadas no curso da minha vida (a inscrição por baixo da assinatura diz "Outubro 1984"): "As coisas não acontecem pela força que fazemos, as coisas, pura e simplesmente, acontecem e aquelas que mais prazer nos deram foram as mais inesperadas, aquelas onde não metemos prego nem estopa."
É fantástico como os livros parecem conter sempre as respostas às inquietações dos olhos que os lêem