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leavitt e o segredo
rosas
innersmile
Detesto segredos. Aliás, não gosto que me contem segredos, até porque sou capaz de os guardar. Quanto me contam qualquer coisa e me pedem segredo, é como se me esquecesse de que mo contaram.
Ao contrário do que pode parecer, um segredo não nos dá nenhum poder acrescido, não nos dá nenhuma mais valia, não nos dá nenhum trunfo! Ao invés, um segredo retira-nos liberdade, aprisiona-nos. Torna-nos seus escravos. Sobretudo quando é um segredo nosso. Certo!, não precisamos de andar por aí feitos camisa aberta, transparentes e, mesmo, despudorados, a mostrar as nossas entranhas (nomeadamente as entranhas emocionais) ao mundo. Claro que não. Há coisas que só a nós dizem respeito, e temos o direito de as reservar, de não as deixar expostas aos olhos do mundo. Mas não as devemos tratar como segredos, como coisas secretas que estamos proibidos (por nós próprios, claro) de mostrar ou contar seja a quem for.
Há coisas acerca dos outros que é preferivel não sabermos. Muitas vezes penso, até em termos profissionais, que "era preferivel não saber isto". Há coisas que não precisamos de saber, nomeadamente acerca dos outros, mesmo daqueles que nos estão perto. Assim como há coisas nossas que os outros não precisam de saber. Agora, um segredo pressupõe sempre a possibilidade de ser desvendado, e quando canalizamos demasiadas energias para preservar o segredo, às tantas o próprio objecto do segredo já não é tão importante como o o facto de termos de o manter secreto. É nesta altura que nos tornamos prisioneiros. É nesta fase que devemos perguntar a nós próprios se vale a pena gastar tanta energia, criar tanta ansiedade, tanta tensão, a tentar manter secreta uma coisa que, se calhar, à luz do facto de poder ser sabida por outros, deixa de ter tanta importância.
Isto tudo a propósito de uma passagem do último livro do D. Leavitt (Martin Bauman; ou a Presa Segura, ed. Teorema). A páginas tantas, o protagonista/narrador percebe que anda à procura de alguém, não a quem possa confiar um segredo, mas que o ajude a libertar-se dele. Certeiro.
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