July 2nd, 2002

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the Robinsons' affair - VIII (interlúdio: encontros imediatos)

Tocam à campainha. Resisto. Finjo não ouvir. Tocam de novo. Espreito à janela do quarto que me serve de escritório, e onde passei a tarde a escrever. Deita para o pátio da entrada. Parece um quadro: as pedras brancas da calçada, os círculos verdes das copas das árvores, o cheiro das tílias.
Lá em baixo, à porta do prédio, um homem estende o braço e toca à campainha, que soa estridente no meu apartamento. Numa reacção impulsiva, chego-me para trás, para não ser visto, mas logo me debruço sobre o parapeito da janela. Chamo alto e aceno com a mão. O homem responde com um aceno e aponta na direcção da porta.
Ouço os passos na escada. Mr. Robinson, como habitualmente, prefere subir a pé os dois andares, a usar o elevador. Vem jovial e sedutor, como sempre. Saúda-me e entra para o escritório. Com um à-vontade que me incomoda ligeiramente, espreita para o écran do computador e sacode a cabeça com um sorriso condescendente. Pega no bloco de apontamentos onde vou tomando notas com uma caligrafia miúda e aracnídea, e logo o deixa cair com um gesto de enfado.
"Não percebo como você consegue ler esses gatafunhos microscópicos que escreve", diz ele. "Ou então é de propósito. Usa essa letra ilegível na esperança de que um erro de leitura resulte numa frase perfeita".
Apesar de estar bem-disposto, nota-se que fica sempre maçado quando me apanha a escrever.
"Vinha convidá-lo para sair, mas vejo que o apanhei em pleno transe criativo. E longe de mim querer interromper a gestação do que ainda pode vir a ser uma obra de arte".
Eu aguento o sarcasmo, e é a minha vez de armar um sorriso condescendente.
"Bom, meu caro, há lá fora um mundo de beleza que se oferece a este glorioso sol, e já vi que você hoje prefere ficar aqui enfiado, a ouvir os seus Requiems, a vir comigo lavar os olhos para uma esplanada".
Já da porta, ainda acrescenta: "Veja lá, não fique demasiado prisioneiro de uma citação. Invente, seja criativo, brinque aos deuses. E nos intervalos, diga qualquer coisa, mande uma mensagem, um mail, apareça no irc. Os seus amigos, apesar de não terem consciência disso, já sentem saudades suas, coitados".
Ouço bater a porta da rua, e vou até à janela. Fico a vê-lo afastar-se. Da beira do passeio, antes de entrar para o automóvel, e sem se voltar para trás, levanta o braço num aceno.
Eu volto para dentro, pego no bloco e leio as notas que escrevi. Rasgo a folha de papel e atiro com ela, amarfanhada, para o cesto dos papeis.