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Zhan Tai / Plataforma
rosas
innersmile
Ontem foi chato. Combinei encontrar-me com o R; saí mais cedo da piscina, passei numa corrida lá por cima e mandei-lhe uma mensagem a dizer que já estava disponível. Ele respondeu a dizer que, afinal, não se podia encontrar comigo. Agora o que é verdadeiramente absurdo é que, passados aqueles segundos de fúria, deitei-me no sofá a ler a revista Ler e passou-me pela cabeça uma ideia do género: inda bem que ele não vem, assim posso comprar um monte de livros. Ok, uma coisa não tem rigorosamente nada a ver com a outra, mas o que este pensamento realmente denuncia é o facto de os livros constituirem para mim uma forma de alienação, de refúgio, de fuga.

Hoje fui vêr Zhan Tai / Plataforma, um filme assombroso do chinês Jia Zhang-ke, que conta a história de um grupo de pessoas que, numa aldeia do norte da China, evoluem de 1979 até 1990, de uma brigada de intervenção cultural para uma banda pop. A narrativa, que segue os movimentos do grupo nas suas mini-digressões e as inter-relações que se vão estabelecendo entre os seus membros e entre estes e pessoas estranhas ao grupo, é pontuada por canções que funcionam como "vinhetas" que, pelo seu género ou pelo seu conteúdo, ilustam o evoluir do tempo histórico (entre as canções que reconheci, em versão chinesa, 'Gengis Khan', uma canção que foi concorrente, ou mesmo vencedora, ao festival da eurovisão, a canção do rapaz do candeeiro, uma versão de uma canção que se chamava qualquer coisa tipo boogie-woogie-woogie, de um inenarravel grupo de europop que floriu na Alemanha dos anos 80 chamado Modern Talking, e, mais surpreendente de todos, ou talvez não!, uma versão chinesa de 'Bella Ciao', um verdadeiro clássico da música popular/folk italiana, que eu tenho cá em casa na versão "rural", digamos assim, e que também foi, na II Grande Guerra, um poderoso hino partisano).
O filme é uma óbvia metáfora da evolução da China pós-Mao, a quem não faltam referências, marcada por uma visão desencantada e triste. Aliás, o que mais impressiona no filme é mesmo essa tristeza contaminadora, que nem um final simplisticamente optimista redime. Se Zhang-ke celebra o fim do constrangimento feudalista do maoismo, nem por isso se entusiasma com o evoluir dos acontecimentos. Parece não haver salvação possível para a aparentemente redundante errância das personagens.
Por outro lado, Zhan Tai é igualmente um filme sobre o tempo, sobre a passagem do tempo, sobre a forma como vivemos o tempo que vai passando. As estações do ano sucedem-se, a errância caracteriza o destino das pessoas, e o tempo (a "passagem das horas", como definiu Álvaro de Campos em poema) parece ser a única coisa que dá sentido a estas vidas.
Mas se o filme é uma óbvia metáfora da China pós-maoista, parece-me ser, igualmente, um fascinante exercício sobre a juventude. Antigamente, havia um estival comboio directo para o Algarve que, vindo do Porto, passava por Coimbra-B à meia-noite, e ia desaguar lá-bas já o dia seguinte se aproximava do meio. Uma das coisas que marcava essa viagem (que eu fiz algumas vezes sem lugar sentado; quer dizer, sem sítio para me sentar que não fosse o chão) era uma interminável paragem, madrugada fora, num improvável não-lugar chamado, se bem me lembro (mas lembro-me mal), Setil. E lá ficávamos horas, à espera que o tempo passasse, e que chegasse a mágica hora em que a composição passava o Tejo e a viagem prosseguia. A juventude é assim uma espécie de Setil, onde o comboio da Vida pára à espera que o tempo passe, contendo em si a carga tensa de todas as promessas futuras. A infância é a idade do presente; a idade adulta é o lugar do passado; só a juventude nos traz o perfume do futuro, se conjuga com a gigantesca promessa de todo o tempo que temos à nossa frent
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