May 24th, 2002

rosas

rock family trees + nacho e garcilaso

Na quarta-feira perdi os primeiros vinte minutos do Rock Family Trees, que, logo por azar, tinha de ser sobre uma golden tree: Joy Division e o som de Manchester (New Order, The Smiths, Tony Wilson e a Factory e a Haçienda - onde eu tive oportunidade de ir numa daquelas noites escritas a ouro no meu currículo - ok, já foi depois da época áurea dos anos 80, mas que se lixe, the thrill was all there!), Pete Shelley e os Buzzcocks. O que vale (aviso à navegação) é que repete hoje à noite (não sei se às 10 se às 11, na BBCPrime).

Trouxe de Londres para a Rita o dvd 'THREE BY DUATO', 3 coregorafias de Nacho Duato pela Compañia Nazional de Danza. Uma das coreografias já a tinha visto, de raspão, na rtp2. A primeira, Arenal, tem música de Maria Del Mar Bonet, e cruza referências diferentes: danças em duo, trio ou quarteto para peças com acompanhamento instrumental, em que se evidencia o lado mais solar e festivo da "alma" espanhola, e peças a cappella, de tom mais telúrico, dançadas por uma bailarina em solo. Novamente varias formações de dançarinos para a segunda coreografia, Duende, com música de Debussy, ligeira, bem humorada e sensual, como seriam os jogos amorosos dos duendes à solta na floresta. Mas é na última coregrafia que Duato mostra a sua raça: chama-se Por Vos Muero, música e canções dos séculos XV e XVI espanhol (entre os solistas, Ton Koopman e Jordi Savall) e poemas (ditos por Miguel Bosé) de Garcilaso de la Vega, um dos poetas do Século de Ouro da Poesia Espanhola. Duato, sempre com a imagem de marca de usar composições de dançarinos em número variável, faz uma espécie de inventário da dança tradicional espanhola vista pelos olhos da dança contemporânea, e expondo, em todo seu fulgor, o vocabulário coreográfico "duatiano". Uma coisa mesmo fora de série.
E o soneto de Garcilaso que dá título à coreografia é deslumbrante:
Escrito está en mi alma vuestro gesto,
y cuanto yo escribir de vos deseo;
vos sola lo escribisteis, yo lo leo
tan solo, que aun de vos me guardo en esto.

En esto estoy y estaré siempre puesto;
que aunque no cabe en mí cuanto en vos veo,
de tanto bien lo que no entiendo creo,
tomando ya la fe por presupuesto.

Yo no nací sino para quereros;
mi alma os ha cortado a su medida;
por hábito del alma mismo os quiero.

Cuanto tengo confieso yo deberos;
por vos nací, por vos tengo la vida,
por vos he de morir y por vos muero.