May 8th, 2002

rosas

tim fortuyn

A propósito da morte de Tim Fortuyn, o lider de um partido de extrema-direita holandês, assassinado na segunda-feira. Comentei com a R. a estranheza pela facto de Fortuyn ser radical de extrema-direita e homossexual, não só assumido, mas activista. Não percebo muito bem como é que, sendo-se minimamente lúcido e esclarecido, se pode alegar ser vítima de uma forma de intolerância e, ao mesmo tempo, defender outras formas de intolerância.
A meio da conversa lembrei-me de que não se trata de um caso assim tão raro e estranho. Afinal, cá na terrinha já temos o nosso próprio lider de extrema-direita homossexual! A grande diferença é que este nosso, ao contrário do outro, não se assume: nem como gay nem como radical de extrema-direita. Mas lá que é, é! (no naming names por causa dos processos de difamação; sim porque ninguém tem mesmo a certeza de que ela seja pelo menos uma dessas duas coisas...)

É absolutamente inevitável olharmos o mundo à nossa imagem e semelhança (se calhar vem daqui sermos todos fisicamente parecidos com deus). Das poucas coisas importantes que aprendi na faculdade (as outras todas verdadeiramente importantes, aprendi, como dizia o outro, no jardim infantil), foi uma vez, numa aula de ciência política do primeiro ano, o professor (de que não recordo o nome, mas lembro-me de que era ligeiramente estrábico) ter usado, para reforçar a ideia de que a nossa visão da realidade nunca é objectiva e imparcial, a metáfora de que olhamos para o mundo como se usassemos lentes coloridas; a realidade aparece sempre com o tom das lentes que usamos (sendo o professor estrábico, esta metáfora das lentes era sempre recebida com um sorriso irónico por parte dos alunos). Gostei da ideia e nunca a perdi. Lembro-me sempre dela, num esforço para me tentar aperceber até que ponto as minhas ideias, os meus valores, os meus preconceitos, influenciam, e alteram, e deturpam, o modo como olho para as coisas à minha volta.
Este esforço não me ajuda a ser mais imparcial e objectivo. Mas relativiza-me os juízos, e obriga-me a respeitar a opinião dos outros como sendo pelo menos tão válida como a minha