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Está Tudo Louco + O Delfim
rosas
innersmile
Ontem fui ver Está Tudo Louco, uma comédia de um dos irmãos Zucker (Aeroplano), com, entre muitos outros, o John Cleese, o Rowan Atkinson, o notável Cuba Gooding Jr, e a Whoopy Goldberg. Saiu melhor do que a encomenda, ou, pelo menos, saiu divertido e "desenfreado", o que, no panorama dos filmes de humor de Hollywwod (filmes de adolescentes, filmes escatológicos, ou filmes escatológicos de adolescentes), já é suficiente para passar uns 90 minutos divertidos.

Em qualquer 'short list' das melhores obras portuguesas na literatura do século XX, O Delfim, de José Cardoso Pires tem seguríssimo lugar (por saber se apenas esta obra de CP caberá em tal lista, ou se nomeadamente Alexandra Alpha lhe fará companhia). É um livro notável, que diz tudo o que há a dizer sobre Portugal e os portugueses daquela época, mas, como todos os clássicos, diz muito sobre Portugal e os portugueses de qualquer tempo, sobre o mundo, sobre a vida. Não que se trate de um livro "de tese"; pelo contrário, é um romance puro, daqueles em que o enredo, a narrativa e o romanesco (passe o pleonasmo) são servidos por uma linguagem perfeita e rigorosa. Como todos os grandes romances, O Delfim é um universo, um sistema completo que, não obstante, interage com os mundos à sua volta.
Adaptar uma tal obra ao cinema é sempre um desafio e um risco. Um desafio porque a aparente vocação cinematográfica do livro de CP é um engano: trata-se de uma obra para ser lida, e mesmo quando investe forte numa certa imagética, fá-lo sempre ao serviço da escrita, da palavra. E um risco enorme, porque as probabilidades de fracasso eram sérias, e os efeitos abrasivos de um falhanço atingiriam, inevitavelmente, o nome da obra que estava na origem do filme.
E, diga-se desde já, risco ultrapassado e desafio ganho. Fernando Lopes (a quem não falta curriculo na adaptação de obras literárias ao cinema; assim de co,: 'Uma Abelha na Chuva', 'Crónica dos Bons Malandros' e 'O Fio do Horizonte') mantém intacta a atmosfera do romance de CP, e, mais do que uma simples adaptação, investe numa leitura própria do romance (nota-se a mão de Vasco Pulido Valente no argumento). Naturalmente, o filme afasta-se do romance, e se no caso do desenvolvimento da personagem de Maria das Mercês (soberba Alexandra Lencastre, mas soberba mesmo!) isso faz todo o sentido (até para centrar o filme na psicologia de Palma Bravo, nomeadamente na sua teia de relações), há outros aspectos eventualmente menos conseguidos: o monólogo final do cauteleiro, a persistência demasiado "bengala" da voz off (se no livro o narrador é, digamos assim, o "nosso" representante enquanto protagonistas do romance, aqui o seu papel claramente periférico em relação ao núcleo do filme retira justificação para a mediurnidade do narrador).
O filme não é seguramente, uma obra-prima do cinema. Mas, para além de ser uma obra coerente e madura, presta um notável serviço ao livro que lhe está na base. E, quando amamos uma obra, gostamos de a ver trabalhada, discutida, tratada. Viva.

Há muito tempo que não sentia tanta ansiedade nas vésperas de uma viagem. Não estando essa ansiedade ligada ao destino, só se pode justificar pela origem: é a primeira vez que eu vou deixar a minha casa. As minhas coisas, os meus livros, os meus cd's, vão ficar aqui sozinhos durante uma semana, e está-me a custar fechar a porta atrás de mim. Mas como está tudo pronto, a mala feita, o bilhete comprado, as amigos à espera, aqui vou eu.
Fui.