April 19th, 2002

rosas

verão 77

No Verão de 1977 concorri a um concurso organizado pela revista Música& Som e ganhei um vinil dos Supertramp, 'Even in the Quietest Moments'. Ouvi muito esse álbum, mas esse Verão foi um espécie de pausa, de intervalo entre o que ia ficar para trás e que viria a seguir. E a seguir, em Novembro, eu vim, forçadamente aliás, para Coimbra (acho que foi essa mudança imposta, que me fez não gostar da cidade, quando cheguei, e que me faz ser muito critico, ainda hoje). As "más companhias" (e as boas também!) iam-me levar para caminhos diferentes e muitas vezes paradoxais: o radicalismo político, a punk music (e logo a segir a new-wave; tudo misturado com uma verdadeira devoção estético-ideológica pela música tradicional, numa espécie de world-music avant la lettre), a literatura, e as outras experiências todas que não vêm agora ao caso. Foi uma fase exaltante, que durou até ao final do primeiro ano da fac. (depois, quando eu estava a meio de outra 'revolução', fiquei doente; e então, em vez de uma revolução, houve um verdadeiro big-bang!). Acontece que durante esses 3 ou 4 anos, o mundo era a preto-e-branco: ou se era a favor, ou se era contra (fosse do que fosse!), não havia cinzentos (hoje em dia sou um verdadeiro expert em cinzentos, capaz de descobrir uma nova tonalidade onde parece não haver nada entre extremos). Por isso, houve muitas coisas que me passaram ao lado durante esses tempos, músicas que eu não ouvia (antigas, do tempo do meu irmão, ou aquilo a que se chamava musica comercial) voluntariamente. Bom, o que é engraçado é que em relação a algumas coisas, essa atitude foi completamente idiota e só resultou em eu, às vezes com um arrependimento de criar bicho, me ter posto a descobrir coisas "do meu tempo" muitos anos depois.
... ah!, vinha isto a propósito dos Supertramp... Hoje, a ler o Y, deu-me assim uma ponta de saudade desse Verão único fechado num segundo andar na Amadora, sem conhecer ninguém, sem grande autonomia e liberdade de movimentos (ter 15 anos era diferente), que passei a ouvir os discos dos Pink Floyd e dos Jethro Tull do meu irmão.

"Quietest moments" não são, seguramente, aqueles em que descobrimos a poesia. Antes pelo contrário: são sempre momentos exaltantes, agitados, de vigília e não de quietude. Um reencontro com Al Berto, através de um livro+disco chamado Wordsong: Pedro d'Orey, Alexandre Cortez e Nuno Grácio (se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela). E a Poesia Completa (ou tão completa quanto possível) de Luis Miguel Nava. Entre 1979 e 1995, ano da sua morte (por assassínio), Nava escreveu uma poesia explosiva, carnal, lírica e sublimatória, em que o corpo (os corpos) ocupou sempre o lugar de epicêntro (às vezes num registo muito próximo do horror). No pórtico deste livro devia haver uma nota advertindo que a poesia de Nava pode provocar estados de alma perturbados e perturbantes, e que a sua leitura se faz exclusivamente "At Your Own Risk".
Não há como por em causa que a poesia (e a prosa, claro, ou pelo menos alguma prosa) nos devolve o nosso próprio rosto quando decidimos olhar, através dela, os abismais túneis da alm