April 15th, 2002

rosas

as amigas comunicam o falecimento

Hoje foi o primeiro dia a sério de férias, até aqui tinha sido fim-de-semana. E pode-se dizer que foi verdadeiramente excelente: levantei-me às oito da manhã (ligeiramente mais cedo do que o habitual, quando tenho de ir trabalhar), tive uma discussão de escacha-pessegueiro com o meu pai (só porque há dias em que não me apetece calar-me e não ligar à sua necessidade de magoar quem ama quando as coisas não lhe correm como gostaria que corressem), e estive a tarde toda a trabalhar (tinha de acabar um trabalho, para não deixar uma data de gente à espera que eu viesse de férias).
Espero que amanhã seja o dia inaugural da monguice que pretendo estabelecer até ao próximo fim-de-semana. Sim, porque no Domingo aí vou eu de novo para Londres. Até é um bocado ridículo. As pessoas quando me perguntam se eu vou "sair nas férias" e eu respondo que sim, acrescentam logo "Vais a Londres"; já nem é uma pergunta, dão por adquirido que lá vou eu outra vez. Mas what can I do? Se não for lá ainda asfixio.
Já estive a ver o cartaz dos musicais e das peças e a má notícia é que o número dos espectáculos que quero vêr já ultapassa o número de dias em que vou lá estar. A má notícia é que estas eram supostas serem umas férias on a tight budget!

Muito de vez em quando, encontramos um livro que nos lê a nós, em vez de sermos nós a lê-lo a ele. Estava eu sossegadíssimo da vida e fui apanhado por um desses livros. De um escritor português, da minha idade, especialista em Camões, que escreve em romance o desespero que pode um desejo imenso. O livro dilacera-me como se eu fosse uma rã exposta na mesa do laboratório e devora-me com a voracidade do fogo.

A morte dela continua a dilacerar-me. Não sei se é o remorso, o susto, o mêdo de que um dia me aconteça o mesmo. Mas é uma dor, passe o cliché, como uma faca que me rasga o peito. Estive hoje a ver o obituário que mandaram por no jornal: uma fotografia (e ela era tão linda) e um texto que começa assim: "As amigas comunicam o falecimento..." As amigas, não "a família". A minha tia diz que estavam quatro pessoas no funeral: ela, a dona e duas empregadas do lar onde ela passou os últimos anos. Até o grito que foi o anúncio ficou por ouvir. Foda-se. Foda-se foda-se foda-se