April 14th, 2002

rosas

as tuas faces

Tu tens duas faces. Uma, quase juvenil, que me olha do outro lado do sofá, quando discorres, com as convicções do tempo que é o teu, sobre os assuntos.
Mas outra é a tua face quando deitas o rosto na almofada, ao lado do meu. Intemporal, profundo, atravessado por uma insuspeitada gravidade, e que nos torna iguais. Mesmo quando um sorriso assoma às covas do teu rosto, aos vincos que se formam, ao de leve, dos lados da boca. Pergunto-te porque sorris, mas logo me arrependo da pergunta, disparatada e inútil. Felizmente, tu não respondes. O sorriso suspende-se por intantes, e regressa, nítido e subtil. O sorriso é um mistério, pressinto-o. O mistério de reconheceres o que trazias dentro de ti e que só agora, aos poucos, vais descobrindo. O sorriso de quem chega, pela primeira vez, à casa que sabe ser a sua.
Quando descubro isto, só o teu sorriso permanece, suspenso no ar como o sorriso do gato de Alice. Na almofada, resta o cheiro que deixaste, como um rasto