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para a i.
rosas
innersmile
(para a I., in memoriam)

Quando a mãe lhe disse que ela tinha morrido, a sua primeira reacção foi pedir a deus que, agora, a ajudasse e lhe fizesse companhia. "Deus, ajuda-a, não a deixes só", pensou ele. Logo ele, um pobre agnóstico em permanente e desequilibrado estado de fraqueza. Mas se havia uma coisa com que aprendera a lidar bem, fora com o convívio com um deus que era o último refúgio do desespero e do complexo de culpa. Ele sabia que era assim, que era esse o papel que deus desempenhava na representação da sua vida.
Os olhos encheram-se de lágrimas ao pensar em alguém que praticamente não conhecia. Também porque os olhos da mãe estavam molhados, como se o choro estivesse, desde há algum tempo, à espera da sua oportunidade. "Morreu sozinha. Deve ter passado humilhações terríveis nestes últimos tempos. Sozinha. Não aguento este peso. Ela era como uma irmã mais velha, e nós abandonámo-la". Não tinha dito tudo isto assim de seguida, mas em frases curtas, entrecortadas por pausas, o que, apesar de tudo, retirava algum do dramatismo, mas aumentava a tristeza que se instalara entre eles, mãe e filho. Ele sentia essa agonia do remorso e da compaixão não correspondida.
Não há, com efeito, morte mais triste do que quando morremos na memória dos outros. A verdade é que a morte só é dura quando morremos fisicamente, quando chega a altura em que ora estamos vivos, respiramos, temos futuro, ora não estamos. E a única coisa que verdadeiramente nos compensa da morte morrida, é a dor que a nossa morte causa nos outros, um sinal de que estávamos vivos, e que vivos permanecemos na sua memória. A morte física, sempre brutal e abrupta, transforma-se numa morte mais suave, prolongada no tempo, gradual e serena, que é a morte na memória dos outros. Esta já não custa tanto, é um dia após o outro, uma fotografia que vai aos poucos perdendo a cor. Esta pequena morte quotidiana apaga a outra, real e gritante, e quando ela própria desaparece, já não somos mais que uma breve e doce lembrança.
Por isso a morte dela era tão violenta, tão magoada. Porque antes de morrer fisicamente, já tinha morrido na memória dos outros. Agora que chegara o fim, já não havia nada para por em seu lugar. Só o nosso imenso vazio a ocupar o lugar que tinha sido dela, em vida.