April 7th, 2002

rosas

Monsters Inc. + In The Bedroom

Ontem, Monstros e Companhia, com o Gustavo. O que é à rpimeira vista estranho, é que eu tenho ido ver os recentes filmes de animação com ele e por sua insistência, e acabo sempre por me divertir muito mais do que ele. Acho que deve ter a ver com esta tendência do recente cinema de animação de captar audiências adultas, para além do fidelíssimo público infantil: os filmes acabam por ser muito mais divertidos para os acompanhantes adultos. Neste como noutros filmes, o grande triunfo é o argumento e o sentido de humor, sem tréguas e sem qualquer concessão "infantilizante".

Hoje, In The Bedroom (Vidas Privadas foi o título em Portugal). É impossível não fazer comparações com 'O Quarto do Filho', tantas são as aparentes coincidências. Mas essa comparação é injusta para o filme de Todd Field: enquanto o filme de Moretti propunha uma nova linguagem, mais abstracta e autonomizada da história (e grande parte do fascínio do filme passa pela nossa própria descoberta de como essa linguagem pode dar uma nova textura aos sentimentos e emoções que se desenrolam no écran), Vidas Privadas move-se, claramente, dentro dos limites da narrativa melodramática, de que o cinema norte-americano fez tese e, pelos vistos, continua a ensaiar as capacidades do dispositivo. E dizer isto não é apoucar o filme de Fields, que gere com um rigor irrepreensível todo o desenrolar do drama, desde a sua preparação às inevitáveis ondas de choque, passando pela encenação discreta, e por isso, mais poderosa, dos dois pontos nevrálgicos em que culminam todas as tensões. Mas como todo o cinema norte-americano (Lynch, obviamente, não entra aqui), tudo depende demasiado do dispositivo narrativo, ou melhor, da própria história que se quer contar (todo o cinema americano se constroi a partir do argumento, da story telling), e, se bem que o faça de um modo muitas vezes admirável, o filme não perdia se sacrificasse um pouco essa noção de eficiência narrativa, gastando algum tempo a indagar os silêncios, as pausas, dos personagens (como, de resto, a personagem de Spacek parece intuir numa das cenas do filme). Por exemplo, o conjunto de vinhetas que dominam a narrativa nas cenas seguintes à morte do filho, em que o fade out como que enuncia que a aparente normalidade das vidas de Matt e Ruth caminha para um inevitável desastre, é admirável precisamente porque dá tempo às personagens para respirar, para instalarem, com o tempo que precisam, as suas próprias angústias e rupturas. Como admirável é a cena da reunião familiar que se segue ao funeral, em que o contraste entre a dor que Matt sente e a imponderável tendência da vida (da vida dos outros) para a normalidade, é-nos dada através de uma série de imagens em reflexo.
Outra das notáveis qualidades de Vidas Privadas é a celebração de que o cinema é uma arte de actores. Se Sissi Spacek não surpreende, porque já todos sabemos como grande é a sua estrela, a revelação de Tom Wilkinson é absolutamente surpreendente: ele está (quase) sempre presente, o filme roda sempre em torno da personagem de Matt, e Wilkinson nunca deixa de estar fit as a fiddle. Não se percebe porque é que Marisa Tormei tem tido uma carreira sem o brilho que o seu talento (aqui para o drama, como já muitas outras vezes para a comédia) merece.

Hoje ao fim da manhã, um saltinho ao coimbrashopping para comprar revistas. Ok, saí de lá com este disco admirável da LeaDeLaria, que ainda nos traz, tipo brinde, o piano de Brad Mehldau em duas faixas, e um interpretação surpreendente de 'All That Jazz'. E como os cd's são como os gnr's (andam sempre aos pares), trouxe também a BSO de O Brother, Where Are Thou?, que é uma jóia de bluegrass.
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    Lea DeLaria - Play It Cool
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