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antónio alçada
rosas
innersmile
Entrevista com o António Alçada Baptista na edição de hoje da Pública (versão uncut no site do jornal, dizem eles, que eu não consigo entrar no site do Público a partir do Netscape). Não sou grande admirador da escrita de Alçada: li pouco, e o pouco que li não me agarrou. Mas Alçada domina um vocabulário com que me identifico: a intransigente defesa da liberdade individual; a procura de uma mecânica dos afectos que substitua os actuais mecanismos da autoridade e do poder; o culto da preguiça como uma espécie de antídoto contra o veneno das nossas vidas competitivas e apressadas; a celebração do feminino como uma saída possível para as esgotadas (esgotantes) sociedades patriarcais; a afirmação do transcendente como o horizonte limpído do nosso olhar (nele, vincadamente de carácter religioso). Uma certa forma de estar na vida que procura ser afável, suave e pacificada.

Ao contrário do que muitas vezes se julga, não se ser religioso, não professar nenhum credo religioso, não ser crente na existência de um deus outro, superior e ontológico, não significa cair-se numa espécie de abjeccionismo materialista. Ou seja, não acreditar na alma, não significa necessariamente que só se acredite nas tripas! Signica, no meu caso, acreditar na transcendência do humano. Acreditar que é na nossa capacidade de abstrair e recordar que reside todo o brilho e todo o mistério da aventura em que embarcamos quando somos convocados, pelos nossos parceiros humanos, para a vida. Que o que me distingue (tão pouco) dos outros animais, não é a imortalidade da minha alma, mas apenas a minha capacidade de me refletir para além do determinismo biológico; de ter consciência do que sou, e usar essa consciência de forma autónoma e livre (e livre de mim próprio, do meu corpo celular). A minha capacidade, afinal, de criar um deus, à minha imagem e semelhança, e projectar nele todo o meu programa de vida.