March 25th, 2002

rosas

oscars

Para poupar esforços, copio para aqui o pedaço de um e-mail que mandei à M., com os primeiros comentários aos oscars. A M. é a minha verdadeira alma gémea cinéfila, não no sentido de partilharmos os mesmos gostos (antes pelo contrário, temos algumas preferências, e até maneiras de olhar para o cinema e para os filmes, diferentes, opostas e mesmo conflituosas!; há assuntos em que já nem tocamos, porque dão logo direito a acalorado debate), mas porque partilhamos uma paixão e o gosto de discutir e analisar o objecto dessa paixão (e, também, a própria natureza da paixão). Bom, fundamentalmente, gostamos muito os dois de ir ao cinema (se bem que eu, por agora, é mais por fases, e decididamente, gosto mais de ver filmes, ou certos filmes, do que "ir ao cinema"), gostamos de ir ao cinema juntos (temos uma forma semelhante de nos comportarmos numa sala de cinema), e gostamos de discutir os filmes (nomeadamente, um com o outro, já que não raras vezes reagimos de forma diferente aos filmes). É, curiosamente, acho eu, esta ligação forte ao cinema, e pelo cinema, que faz com que a nossa amizade, que nasceu de um contacto mais intenso quando eu estive 3 meses nos EUA e nos conhecemos, perdure há 4 ou 5 anos, com dois contactos anuais quando ela cá vem, e contactos por mail que seguem o ritmo das nossas respectivas idas ao cinema. Já houve ocasiões (aliás, no Natal é quase sempre) em que ela veio cá nas férias e o nosso único encontro foi passar um Sábado ou um Domingo enfiados no Arrábida a ver filmes (4 foi o nosso record)!
Bem, mas quanto aos oscars...

"Só vi a primeira hora e meia da Oscar night, e mesmo assim deitei-me às 3!!! Gostei do discurso do Woody Allen (já te reconciliaste? eu fui ver na passada sexta-feira o Small Time Crooks, e adorei; tem momentos verdadeiramente hilariantes. Dizem que a velhice é como um regresso à infância, e deve ser isso que está a acontecer com ele: estes últimos filmes fazem lembrar os filmes dele pré-Mia... whoops, acho que acabei de tocar numa sensitive key!). Pelo que ouvi hoje de manhã na rádio, o discurso da Halle Berry também foi muito emocionante.
Mas as escolhas da Academia deixam-me sempre muito desgostoso. Primeiro, não deram o oscar de melhor filme estrangeiro ao Destino Fabuloso de Amelie Poulain (nem esse, nem nenhum dos outros para que estava nomeada esta fita fantástica. Já conseguiste ver?).
Depois, são tão convencionais, tão middle of the road, que até faz urticária. Terem dado o oscar do melhor filme ao Beautiful Mind, ok!, tudo bem, era previsivel: a Academia nunca esquece que o ponto óptimo do cinema é aquele onde se encontram a curva do cinema enquanto espectáculo de entretenimento popular e a do negócio (gostaste deste toquezinho?). Mas dar o oscar de melhor realizador ao Ron Howard... puuuhlease! Ele é um artesão (louvável, dedicado, obreiro, é certo, mas é um artesão, e não um artista). A falta de sentido é particularmente gritante porque outro dos candidatos era o Lynch, que fez um filme fascinante, um objecto único e incomparável, verdadeiramente "directed by" e não apenas "assembled by"... Ok, já não digo darem o oscar ao Lynch, podia ser muito avançado, muito extravagente, mas ao menos ao Lord of the Rings, que, apesar de ser uma super-produção é, paradoxalmente, um filme mais pessoal (mais autoral), do que o do Howard.
Escolha notável mesmo foi a dos oscars para melhor actor e actriz (infelizmente, ainda não vi nenhum dos filmes em causa). Acho que é um momento histórico, dois negros receberem os prémios maiores do cinema. Significa, desde logo, a capacidade de o cinema americano, que é sobretudo uma white industry, conseguir criar papeís de desempenho artistico para actores negros, e não meras caricaturas da diversidade racial (como são a maior parte das black parts). Depois, é uma celebração da diversidade, o que é sempre uma coisa notável, não termos medo do que é diferente. Aliás, a noite foi muito colorida (e ainda bem): a Whoopy, o oscar da carreira para o Sidney Poitier, e os dois oscars para melhor actriz e actor."