March 5th, 2002

rosas

metal fundente

Tudo o que está aqui no LJ é meu (acho eu; pois: não tenho 100% de certeza!). Ou, mais flaubertianamente, o LJ sou eu. Tudo aquilo que aqui escrevo, ajuda-me a definir-me e a preencher-me. Mesmo quando ponho aqui coisas de outros, é sempre porque essas coisas me ajudam a conhecer-me. A explorar-me. De resto, o que é mais apaixonante nesta versão pública do diário, como já tenho repetidamente escrito, é que esse processo de auto-conhecimento (e de auto-reconhecimento, por vezes), se faz com o contributo dos outros, mesmo que seja do mero olhar dos outros.
Mas nem tudo o que sou está aqui no LJ. Eu sobro-me, naturalmente, em relação ao que aqui ponho. Por pudor, por cobardia, por despropósito, ou, mais prosaica e frequentemente, porque não vem ao caso. Por exemplo, o que se relaciona com o meu trabalho. Raramente falo disso aqui, e, quando o faço, é mais para reflectir sobre determinados sentimentos que o trabalho me provoca (sim, isto é um eufemismo para dizer que quando falo aqui do trabalho é porque estou furioso e me apetece insultar alguém!). O mesmo em relação à natureza dos meus afectos (outro eufemismo!); quando falo deles é porque vem a propósito de outras coisas, de outras reflexões. Ou seja, há aspectos da minha vida que não cabem aqui, e que só são convocados quando isso faz algum sentido, quando estão ao serviço de coisas sobre as quais me interessa escrever.
Também já tenho escrito que este diário não é confessional. Não o é nesta versão pública do LJ, mas também nunca foi nas inúmeras versões de livrinho de capa (ou de disquete) preta. O que aqui me chama é o registo, a necessidade de reflectir com a ajuda da palavra, sobre coisas que tocam a minha sensibilidade (luzes que impressionam a minha película, o meu filme), e que, como já disse, me ajudam a explorar-me na minha relação comigo, com os outros, com o mundo e com a vida. Naturalmente que, como escrevo com alguma frequência, não é invulgar o confessional entrar por aqui a dentro. Quando isso acontece, tudo bem, mas não é esse o propósito deste exercício. Mesmo num texto muito pessoal como foi a entrada sobre a minha doença, não houve qualquer necessidade de desabafo, exorcismo ou sublimação. Simplesmente, aproveitei responder a uma solicitação (cá está o papel do outro) para fazer uma espécie de balanço, de revisão da matéria dada.
Como diz o Cesariny, "entre nós e as palavras há metal fundente" (já aí vem o poema todo). O LJ passa também, pelo gosto pela palavra, porque é pela palavra que conseguimos (que eu consigo) estabelecer a minha relação com o mundo. A palavra, porque é símbolo, mediatiza e relativiza. Constrói e reflecte, mas também resguarda e distancia. Revela, mas também esconde. Para dizer que, retomando o que escrevi sobre o último filme do Lynch, se tudo é ilusão, então tudo é verdade. Que escrevo à pele, mas não sobre a pele.

E para compensar os persistentes, e também para dar um pouco de elevação a esta entrada um pouco repetitiva (e talvez também repetida?), aqui fica YOU ARE WELCOME TO ELSINORE do Mário Cesariny, outro dos poemas da minha vida.

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar