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Mulholland Drive
rosas
innersmile
It is an illusion. É nesta premissa que assenta Mulholland Drive, como aliás todo o cinema de Lynch. E quando tudo pode ser ilusão, tudo pode ser verdade. O que Lynch atinge com este filme é um novo patamar, um patamar mais elevado, na capacidade de criar um universo de estranheza e insólito dotado de uma coerência à prova de bala, e de um rigor formal magnificamente belo.
Cabe-nos a nós, espectadores, o pequeno esforço de abandonarmos os dispositivos da narrativa clássica, linear e verosímil, a plausibilidade dos discursos mais ou menos simbólicos, para aceitar esta história irreal, onde o desenrolar dos factos se limita a mimetizar os incompreensíveis caminhos da alma humana.
Mais do que de uma descida ao inferno, o que o filme de Lynch parece propor é uma aventura por caminhos que aparentemente são desconhecidos (as duas personagens estão, no início do filme, destituídas de passado, são personagens cheias do que está por vir), mas em que nos esperam todos os fantasmas do que já fomos e do que ainda não fomos.
Numa cena de invulgar beleza e intensidade (e que é uma espécie de palimpsesto de uma outra cena magnífica de BLUE VELVET, em que a personagem de Dean Stockwell fazia um lip synch de In Dreams, do Roy Orbison), Betty e Rita visitam o Club Silencio e ouvem Rebekah Del Rio cantar Llorando (uma versão de Crying, do mesmo Roy Orbison). E é o limite de suportabilidade da beleza, da tristeza, da melancolia que atingem, que constitui a chave para um universo interior indomável e avassalador, cujos indícios exteriores são, afinal, a matéria de que são feitos os thrillers.
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