February 24th, 2002

rosas

cintra + trokadero + duane + flw

O poeta Casimiro de Brito, no seu diário do ano 2000, refere, para dar notícia da morte do actor, que "se pudesse levar a voz de um actor para uma ilha deserta, era a de John Gielgud que levava". Há efectivamente, actores que nos cativam totalmente pela voz. Se há, para mim, uma voz-flauta mágica, essa que me levaria a mim para uma ilha deserta (e não o contrário), ela é seguramente a do actor Luis Miguel Cintra (sinto vergonha por andar a perder os espectáculos da Cornucópia; tenho de me redimir com O Colar).
Mas faz hoje oito dias que se calou uma das vozes ( voz em sentido estrito, mas também em sentido figurado) mais marcantes do teatro português, a de Teresa Roby. Uma voz quente como o veludo e brilhante como a seda. Aliás, a presença de Teresa Roby em palco era ela própria quente, macia, envolvente. Como morre jovem o que os deuses amam, procuremos aí no verso uma qualquer espécie de conforto.

Regresso de Lisboa, para ir ver os Trockadero na sexta ao CCB. O que é difícil neste espectáculo é ver para além da sátira, do efeito cómico. É ver, por exemplo, o rigoroso apuro técnico dos bailarinos, presente na desconstrução dos truques e dos tiques do ballet clássico, mas presente também quando eles mostram como é que se faz: há momentos em que, como na tradicional ópera chinesa, quase se esquece de que é um homem que se esconde por detrás da máscara. Mas é vêr, também, a ausência da ideia de coreografia, e perceber, de uma vez por todas, e neste caso pela ausência, como a coreografia faz tão parte da dança como a técnica.

Ainda na sexta, na FNAC, espreitei o The Essential DUANE MICHALS, que eu já tinha visto por aí, mas que ainda não tinha agarrado com as mãos (que, como se sabe, têm elas próprias olhos ainda mais poderosos que os da cara). Claro que o comprei, até porque, ao contrário do que estava à espera, é barato. Agora já é oficial aquilo que até aqui era oficioso: o DM é o meu fotógrafo preferido. Dava tudo para sonhar vividamente com a retrospectiva que vi da obra dele na Gulbenkian, para aí há uns 10 anitos. É que nessa altura, aquilo foi fantástico como uma revelação ou uma paixão. Precisava de ver as fotos agora (de lhes tocar com os olhos, já que o olhar tem um tacto ainda mais poderoso que o das mãos) para lhes beber devagar a seiva do amor.
Como o livro foi baratinho, eu decidi logo contrabalançar, e trouxe a import do DVD de HANNA-BI.

No Sábado, voltei ao CCB para ver as exposições. Por partes. A de Frank Lloyd Wright confirmou apenas aquilo que eu já sabia desde que, por um daqueles bambúrrios de sorte que nos fazem clamar "gracias a la vida", na minha única ida a NY fiquei num hotel no mesmo quarteirão do MOMA onde estava a correr uma integral do arquitecto (assim do tipo da que no verão vi dedicada ao Oscar Neymeyer no Pavilhão de Portugal). Bom e o que se confirmou é que FLW foi, talvez, o mais artista dos arquitectos, porque foi o que levou mais longe a abstracção de que a arquitetura precisa para ser uma arte (como, claro, todas as outras formas de arte). É fácil desprendermos aqueles desenhos, as plantas, as maquetes (adoro maquetes: são a única maneira de podermos ver a arquitetura com o mesmo olhar privilegiado com que deus a olha) da concreta matéria em que se tornaram (ou não), para as vermos como puras formas.
A outra exposição foi a de Gibert and George, the sculptors, como eles se faziam anunciar antigamente. Uma exposição a todos os títulos brilhante, não só pela hipótese de fazer a retrospectiva, como pela montagem, ampla e aberta, aproveitando os espaços desafogados do centro de exposições do CCB, que nos proporciona um convívio afectivo e envolvente com as obras expostas (a aproximação do visitante à tela Names é exemplar: vamos descobrindo aos poucos a enorma tela até depararmos, de frente, com o motivo central). Para além da provocação, da pose, da criação de uma linguagem técnica própria, há nestes quadros uma fragilidade comovente e exposta, uma busca do diálogo e da aceitação do espectador, que me surpreendeu (eu só tinha visto algumas obras avulsas).

O resto foi a manhosice do costume, que, para poupar as sensibilidades mais impressionáveis, ficam por nomear.