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La Stanza Del Figlio
rosas
innersmile
I am I because my little dog knows me, escreveu Gertrude Stein quando, aos 60 anos, finalmente conheceu a fama literária e o sucesso popular com uma obra, a "Autobiography", onde ela considerava não estar o seu verdadeiro eu literário, sendo ao invés uma obra "encomendada" por Alice B. Toklas para "make money". Segue-se a explicação daquela asserção: confrontada com tal reconhecimento público, GS sofreu um bloqueio, sentia que tinha perdido a personalidade, agora que muita gente a conhecia.
Claro que o sentido da frase também é outro: só nos reconhecemos através dos outros, nomeadamente daqueles a quem amamos e que nos amam, da forma "unrequited" (incondicional?) com que os cães são capazes de amar o seu dono.
De qualquer forma, não consegui deixar de relativisar o bloqueio que GS sofreu e que, de certa forma, é essa espécie de paralisia provocada pela consciência de que os outros nos vão ler. Talvez "escrever" seja mesmo esse estado a que se consegue chegar em que a presença em fundo do outro se incorpora de tal modo no processo criativo que passa a fazer parte da palavra.

Ainda sob o efeito de LA STANZA DEL FIGLIO. Tenho de resistir ao impulso de transcrever cena a cena todo o filme, parando em cada plano, em cada travelling, em cada sequência. Mas, aos poucos, vão-se destacando na memória momentos chave da narrativa. Como esse em que Giovanni procura nas diversões da feira popular uma espécie de bebedeira sensorial que lhe acalme a profundidade latejante da ferida.
Tenho uma certa tendência para "juntar" os filmes, como se os arrumasse na estante da memória, não tanto por géneros ou assuntos, mas mais por afinidades afectivas. E a este filme de Moretti senti logo que o tinha de arrumar ao lado do soberbo 'Yi yi', do Edward Yang: a mesma filigrana emocional, a mesma contenção e rigor. Cada um destes dois filmes tece uma delicadíssima teia, que é dos sentimentos (para os quais, como diz a ausente Ana, ainda não foram inventados nomes) e das ligações que esses sentimentos estabelecem entre as pessoas.
E concluo que, na abordagem dessa filigrana, o que faz a diferença em termos de narrativa melodramática é, curiosamente, uma contenção, uma rarefacção: de palavras, de sinais, de símbolos. É ao silêncio dos olhares que o cinema vai buscar a intensidade daquelas coisas fundamentais que acontecem sem que jamais sejam nomeadas.

B Y T H I S R I V E R
Here we are
Stuck by this river
You and I
Underneath the sky
That's ever falling down down down
Ever falling down

Through the day
As if on an ocean
Waiting here
Always failing to remember
Why we came came came
I wonder why we came

You talk to me
As if from a distance
And I reply
With impressions
Chosen from another time time time
From another time

(Eno/Roedelius/Moebius)