February 13th, 2002

rosas

anjos

Esta história dos cinco anjinhos madeirenses e do irmão que ainda resiste às extremas vulnerabilidades da sua prematuridade, é comovente.
Mas também é revoltante. Há cerca de um mês, uma mulher foi condenada por um tribunal português a pena de prisão por ter abortado na sequência de uma gravidez não desejada. Agora condoemo-nos deste facto de haver uma gravidez desejada, múltipla, cujas hipóteses de sucesso eram, à partida, escassas. Ou seja, num caso condenamos porque se matou o que não se desejou. No outro comove-nos quem desejou sabendo que a morte era o desfecho mais que provável. Não há aqui uma forte contradição? E uma valente hipocrisia. Indignamo-nos, condenamos até, quando é negado um projecto de vida futura, mas aceitamos naturalmente esta morte de quem efectivamente nasceu e viveu, de quem foi, para todos os essenciais efeitos, nosso igual.
É comovente a história desta família, é certo. Mas comove-me mais ainda a história desses cinco anjinhos que viveram fugazmente uma morte anunciada, vítimas de uma crueldade egoísta que roça a imoralidade, e que ninguém parece ver, quanto mais denunciar.
Só para eles, para as escassas batidas dos seus corações, vai o meu imenso respeito.

Juntei os Diários de Kafka, que comprei hoje à hora de almoço, aos inúmeros livros que já estava a ler. Tenho livros em vários lugares da casa, e vou-os lendo à medida que vou evoluindo pelos diversos compartimentos. Sentado a esta mesa leio um. Ali no sofá, outro. Um enquanto ouço música. Outro para quando vejo a televisão sem som. Outro para ler na cama, antes de dormir. Mais um para ler quando acordo. E por aí fora. Claro que isto é exagerado. Mas o verdadeiro exagero é eu não parar de comprar, e começar a ler, todos os livros que chamam pelo meu nome.