February 5th, 2002

rosas

onde é que eu estava com 22 anos

Perguntaste-me um dia destes onde é que eu estava com 22 anos. Bingo!, acertaste em cheio. O ano do meu 22º aniversário foi o ano da minha vida, o ano de todos os perigos, o primeiro ano do resto da minha vida.
Na primavera de 1983 fiquei doente com hepatite, daquela mais maciazinha, que se apanha a comer alfaces nas cantinas universitárias. Recuperei rapidamente, mas houve qualquer coisa que ficou sempre muito mal. Passei o verão em exames médicos, e, no dia 21 de Novembro desse ano, fui operado no IPO de Coimbra. Descobriram que eu tinha um cancro. Passei o mês de Janeiro a fazer radioterapia com ampola de cobalto, e, no dia 12 de Março de 1984, com os 22 aninhos ainda frescos, fui para Londres, onde estive praticamente, on and off, um ano. Primeiro a fazer quimioterapia, e depois a recuperar das mazelas sob vigilância apertada. Depois disso, foram quase 2 anos a fazer fisioterapia e natação para recuperar.
Foi, como podes calcular, um processo muito violento. Primeiro porque, se hoje em dia o cancro é ainda uma coisa assustadora, há quase 20 anos era praticamente uma sentença de morte. Depois, foi um processo muito longo e desgastante. Finalmente, na altura, os tratamentos eram bastante mais agressivos do que são hoje; a radioterapia era uma queimadura violenta, e as drogas da quimio eram tão tóxicas se não se morresse da doença morria-se da cura. Enfim, foi dose!
Bom, isto tudo naquela altura da vida (nessa altura da vida) em que a gente acha que está tudo ainda à nossa frente, que temos direito a ver cumpridas todas as promessas que o futuro nos faz. Não te consigo contar, com a serenidade e a objectividade com que te relatei os factos, tudo o que senti, tudo o que eu senti que em mim se perdeu, mas também tudo o que ganhei, com esta história. A tal ponto que tudo o que se passou antes disso me parece incerto, enevoado, indefinido. Daí para cá, a minha vida correu com a velocidade de um fósforo a arder. Como se, nestes últimos 20 anos, eu tivesse vivido tudo ao mesmo tempo.
Para além dos clichets todos de que seguramente já ouviste falar (e que são todos verdadeiros: a consciência de que a vida é um bem frágil e precioso, de que é preciso viver cada dia de cada vez, a forma como aprendemos a desvalorizar aquilo que não tem verdadeira importância, etc.) há assim uma sensação estranha de que eu, naquela altura e naquelas circunstâncias, nasci de novo; de que hoje sou tão filho daquela doença, como sou da minha família, da terra em que nasci, do meio em que fui criado, da educação que tive.
Não sinto (e às vezes tenho medo de que isto seja assim uma espécie de "blasfémia"; ah! também se aprende a ter medo) rancor ou amargura por ter vivido uma situação que foi, a todos os títulos, penosa e difícil. Não sinto mágoa por, de certa forma, não ter podido viver, da mesma forma e com a mesma intensidade, experiências que outros viveram. Porque desejar que isso não me tivesse acontecido era o mesmo que rejeitar aquilo que sou hoje, ou, pelo menos, uma parte daquilo que hoje sou. Eu sei que a forma como vivi os meus 22 anos não se deseja a ninguém. Mas também sei que não a trocava por nenhuma outra.