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Respirar (debaixo d’água)
rosas
innersmile
Na madrugada passada, num programa de curtas-metragens no canal 2, revi, e gravei, ‘Respirar (debaixo d’água)’, de António Ferreira. É um filme fascinante, sobre o qual repego um texto que escrevi na altura em que o vi.
"António Ferreira filma o desamparo da adolescência num registo minimalista que privilegia a sedução epidérmica do corpo submerso. Há um olhar inegavelmente sensual que se derrama sobre os corpos dos actores e que, de alguma forma, acentua o abandono que é condição da estação etária.
E, depois, o fascínio de ver Coimbra filmada do lado errado do bilhete-postal, assumida como cenário de uma urbanidade hodierna.
Há, ainda, um domínio dos elementos fílmicos absolutamente irrepreensível: a direcção de actores é rigorosa, a fotografia é quente e limpa como um dia de verão, a música serve na perfeição a narrativa, o tempo é sincopado e elíptico.
Mas, retomando, o que nos prende os olhos é o que fascina o realizador: a fisicalidade de um actor, Alexandre Pinto, que, na tradição dos grandes actores do corpo, quanto mais se oferece mais nos arrebata."
Um ano depois, o filme mantém toda a frescura e toda a limpidez da água ribeirinha. Nem uma ruga, nem uma sombra toldam esta história simples filmada em nome de um fascínio.

Numa conversa breve no IRC, tentam convencer-me a não desistir da escrita, a tentar divulgar algumas das coisas que escrevo, nomeadamente aqui no LJ. A ironia: como não escrevo, entretenho-me a escrever sobre essa ausência. Eu estava aqui a pensar que em relação à escrita, a minha vida é uma encruzilhada. Mas não, não é. Eu é que me deixei ficar sentado na encruzilhada; a minha vida, mais despachada, seguiu caminho e já vai ali à frente.

Dana-me não conseguir resistir a certas tentações (como me dana resistir demais a outras). Há uma caixa, e eu sei que o fascínio é a caixa fechada. Sei que o deslumbramento se quebrará no momento em que eu descobrir que a caixa está vazia, e que, ao invés, a magia permanecerá intacta enquanto a caixa permanecer fechada. Infantilmente, quase como um elefante numa loja de porcelana, abro a caixa, já com a falta de entusiasmo que sentimos pelas coisas que deixamos para trás.