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meditação do duque de gândia
rosas
innersmile
Em 'Na Barca do Coração', além do diário do ano 2000, Casimiro de Brito inclui uma colecção de poemas que são, explica ele, o embrião de uma antologia pessoal. Achei interessante, porque muitas vezes me tenho entretido com a ideia de fazer uma colecção daqueles poemas que são mais meus. De 3 desses poemas acho que já aqui falei: o II poema Noturno, do Reinaldo Ferreira, o Soneto Já Antigo, do Pessoa / Campos, o Stopping by Woods on a Snowing Evening, do Robert Frost. Ainda não me dei ao trabalho de, poeta a poeta, daqueles a que estou sempre a voltar, escolher um poema, aquele poema, para incluir nessa virtual geografia antológica das palavras que me reflectem.
Mas duas escolhas de Casimiro de Brito acertaram em cheio. Uma talvez seja mais ou menos óbvia: o poema de Sá de Miranda que começa "Comigo me desavim" é dos mais conhecidos do poeta, dos mais "populares", digamos assim, e daqueles que mais próximos estão do nós de hoje. É por isso natural que, ao pensar num poema de Sá de Miranda para uma colecção pessoal, seja esse que vem à tona.
Mas o outro caso parece-me mais mágico, um encontro mais especial, e fez-me logo sentir uma afinidade simpática, e cúmplice, com Casimiro de Brito. Sophia é poetisa de muitos e muito belos poemas. A MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GÂNDIA SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL não será a escolha mais óbvia, até porque não é propriamente o mais representativo do universo temático de Sophia. Mas é esse o meu poema de Sophia de Mello Breyner. E, na esperança de que ele encontre outros corações onde se anichar, aí fica.

Nunca mais
A tua face será pura, limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais servirei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.