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dois micro-contos: rua de são marçal e auto-estrada do norte
rosas
innersmile
I
RUA DE SÃO MARÇAL

Deste-me o braço e descemos a rua. Felizes e, ao menos aparentemente, inocentes. Mas houve nesse teu gesto a memória de uma dor antiga - incómoda, é certo, mas apaziguadora e familiar.

Sempre que desço a rua, lembro-me da luz da tarde de sol em que a desci pela primeira vez. Como tudo me pareceu tão verdadeiro. Senti, então, a luz na face, e permaneci nesse momento, como descobri mais tarde, para sempre. Depois dessa tarde, desci e subi a rua muitas vezes, ao sol, à chuva, de noite. Mas é sempre a luz dessa tarde que surge quando, lá em cima, volto a esquina e vejo o passeio de calçada luminosa, a cúpula branca de uma igreja, a nesga de rio ao fundo, e, como num poema, os gatos.

Tu, ao meu lado, descendo a rua, alegre e enganador. Encantava-me a alegria e mesmo um certa descontracção indiferente com que parecias dar cada passo. Como se, para ti, desceres a rua de braço dado comigo fosse o momento de uma vida, e não houvesse nada em volta. Mesmo sabendo que essa alegria era um truque, comparada com uma outra alegria, espontânea e breve, que eu raras vezes surpreendi no teu rosto. Encantadora, mas não contangiante, a alegria do teu rosto quando me deste o braço e descemos a rua. Esse momento, que era só teu mas em que parecias ser tudo o que eu queria que fosses, foi aquele em que estivemos mais juntos. E foi também quando, silenciosamente, me comecei a afastar de ti.

Não sei bem o que prupunhas nessa noite. Senti a dor, doce e magoada, a cintilar na memória. A dor aguda de que tu eras apenas uma forma diferente, e ainda assim apenas ligeiramente diferente, de eu estar só. Mas soube, nesse momento, que afinal não me prupunhas nada, envolvido como estavas nessa pretensa alegria que te abria o rosto e embalava o passo.

E continuámos a descer a rua, de braço dado. Tu, confiante na felicidade verdadeira de um falso momento. Eu, já irremediavelmente alheado noutra tarde.

II
AUTO-ESTRADA DO NORTE

Auto-estrada do norte. Sublanço Estarreja-Feira. Uma tarde de final de Outono ou princípio de Inverno. O sol a arrefecer. "I try to say goodbye and I choke, Try to walk away and I stumble". Lembras-te de eu te dizer que a minha vida podia ser contada através de canções pop?

Parámos uma noite na cidade da ria. Era já Inverno e a noite estava fria. Entrámos na loja e eu comprei o CD. "Esta canção é lindíssima", disse eu. Tu disseste que não conhecias. Chegámos a casa (a tua casa) e eu fui ouvir o disco. Estava fria a casa, como se não fosse habitada. Ou como se fosse habitada apenas pelas nossas toalhas, estendidas lado a lado no varal, lá fora.

Um dia disseste-me. Assim, sem eu estar à espera, à queima-roupa. "My world crumbles when you are not here". Não sei se me chegaste a dizer pessoalmente. Ou se foi já na fase em que já só falávamos por telefone. Mesmo antes dos três minutos da canção terem terminado. Que também tinhas comprado o disco e a canção era, de facto, lindíssima.
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