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cv
rosas
innersmile
Tenho estado a fazer o meu CV para concorrer a um concurso a que não posso deixar de me candidatar. Mais uma vez, sinto muitas dúvidas em relação ao W e à minha carreira. Não só por causa da situação que se vive no W., mas porque acho que, nos concursos, o trabalho diário, de tarimba, de ganhar a confiança das pessoas e tentar construir algo de positivo, ainda que pequeno e não muito vistoso, não é minimamente valorizado. O que se valoriza é o desempenho de cargos públicos, a publicação de trabalhos, enfim, o fogo de vista. Eu trabalho há dez anos na mesma instituição, e há seis no mesmo posto de trabalho. Com uma profissão muito exposta e sempre no centro de terríveis conflitos inter-pessoais, a verdade é que ao longo deste tempo todo tive muitos poucos problemas, e os poucos que tive consegui resolvê-los. E, por causa disso, vou ter pior classificação do que aquelas pessoas que passam a vida a saltar de instituição para instituição, sem nunca terem possibilidade (e capacidade?) de fazerem seja o que for. Oh well... Que se foda, pardon my french!

A minha mãe esteve-me a contar a história de uma senhora de 80 anos, que ainda está ligada à família, e acerca de quem as minhas memórias são muito ténues e vagas. Essa senhora sempre viveu só, é aposentada de uma profissão que exerceu a vida toda, e, nos últimos 20 anos, tem feito o périplo dos lares e dos quartos alugados em casas de pessoas. Agora, desde o passado dia 20 de Dezembro, está hospitalizada num hospital de Lisboa, porque caiu e partiu o colo do fémur. Ou seja, nunca mais vai andar e é pouco provável que sobreviva a este problema e tem absoluta consciência do facto. Vive na mais radical solidão, sem família que a aconchegue e lhe dê o conforto da companhia. Os haveres que tem (atenção que não estamos a falar de uma pessoa indigente, ela tem uma reforma que não há-de ser totalmente iníqua) trá-los sempre com ela, nomeadamente duas jóias que guardou da mãe...
...and then you die. Foda-se. É como diz o outro: raios partam a vida e quem lá ande.

Devia ter resistido ao filho-da-puta do impulso que me trouxe a escrever aqui hoje. Não havia necessidade, e o pudor aconselhava ao recato. Mas pode ser que assim sossegue a ferida.