December 5th, 2001

rosas

eu, rosie

Tenho de resistir à tentação de transformar este diário numa espécie de muro das lamentações. Mas estes últimos dias têm sido muito desgastantes, ao ponto de as boas notícias não se notarem por entre o tumulto das coisas negativas que têm acontecido. Oh well...

Há meia dúzia de poemas que andam sempre comigo. São aqueles em que, de alguma forma, me revejo; já os conheço há tanto tempo, já os tenho tão interiorizados, que parece acompanharem-me com aquele grau de singularidade e pertença da impressão digital que trago no bilhete de identidade. O Soneto Já Antigo, do Álvaro de Campos (que tem estado aí no meu file a servir de bio) é um deles. O Stopping By Woods On A Snowy Evening do Robert Frost é outro (But I have promises to keep And miles to go before I sleep). Mas este do Reinaldo Ferreira é talvez o que anda há mais tempo comigo (na realidade, desde que eu era criança) e, até por ser muito pouco conhecido, talvez aquele de que me tenha apropriado mais. Lembrei-me dele agora e, antes que seja tarde, ele aqui fica:

Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.