December 2nd, 2001

rosas

Rasganço

the end of a perfect day

O dia de ontem, sexta-feira, acabou da pior maneira: estava num jantar, on business (havia tantos casacos de peles no jantar que eu cheguei a pensar que estava nalgum episódio do National Geografic Magazine!), e telefonou-me a minha mãe a dizer que estava muito doente e que ia para o hospital. Fui logo lá ter e estivemos lá até depois das duas da manhã. Afinal não era nada de grave, mas ela continua com dores. Ainda na incerteza do que iria acontecer, telefonei ao A. a cancelar a nossa ida ao Porto. Fica para a próxima. O dia de hoje foi estranho, ainda sob o efeito ressacado da noite de tensão, e também da falta de sono.

Fui há pouco ver Rasganço, o filme que Raquel Freire fez em Coimbra. Bem, tem uma qualidade evidente: consegue filmar os quadros mais típicos de Coimbra sem ser aquela coisa do cartão postal nem do documentário sobre as tradições académicas. Não achei o filme grande coisa, falta-lhe um pouco de consistência romanesca, na minha opinião (devia haver escolas para argumentistas; os realizadores portugueses acham que é suficiente terem uma ideia engraçada e filmá-la; a ideia de um serial killer à solta em Coimbra é interessante, mas o desenvolvimento dessa ideia é que é um pouco débil), e o fundo político-psicológico parece-me um pouco shallow. Mas numa coisa estou totalmente ao lado da realizadora: como seria de esperar, aí os guardiões da praxe académica levantaram logo a voz (e as mocas) a protestar contra o olhar que RF lança à prática da tradição; acusam-na de dar uma imagem elitista e exclusivista. É verdade que sim, mas apenas porque a tradição académica coimbrã, capitaneada pelos veteranos, é elitista, selectiva, retrógrada e reaccionária. Sempre que alguém tenta fazer qualquer coisa que saia, pouco que seja, dos canônes, é logo vítima da moca. Aliás, a prova disso, é que nem sequer admitem que se possa ter um olhar diferente sobre a população estudantil universitária, que desatam logo aos berros. Ora Raquel Freire fez, obviamente, um filme de ficção, o seu filme, e, nessa medida, a sua visão artistica não está, não pode estar, sujeita a qualquer código da praxe. Um filme pessoal, de memória e conjuro, em primeiro lugar; mas também uma louvável tentativa de inscrever uma ficção no espaço reconhecivel da paisagem coimbrã, particularmente da sua paisagem estudantil. Nessa medida, o seu esforço deve ser reconhecido, e a cidade, e a academia, principalmente, deveriam estar agradecidas a quem olha esta cidade livre dos preconceitos de quem cá vive.