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william forsythe
rosas
innersmile
Há coisas assim, que nos abrem a cabeça, mind blowing, fazem-nos olhar o mundo, a vida, os outros, de uma forma verdadeiramente nova.
Ontem, no CCB, houve momentos assim. O Frankfurt Ballett, de William Forsythe, apresentou Eidos:Telos, uma peça em três partes sobre os limites do tempo e do espaço. Há duas notas fundamentais. A primeira é que Forsythe inventou uma nova linguagem para o corpo, como se permanentemente o interrogasse sobre (e testasse) os seus limites; a sua dança é feita de improvisações a partir daquilo a que ele chama cadenzas, o que, naturalmente, devolve para os bailarinos toda a responsabilidade do espectáculo - os dançarinos utilizam, de forma mais ou menos livre, um alfabeto rigorosamente definido. Aliás, isso foi particularmente visível num momento da terceira parte em que uma bailarina dança perante o restante corpo de baile, e os músicos, sentados no chão a olharem-na; a sua vulnerabilidade é incomparavelmente maior do que se estivesse sózinha em palco.
A outra nota importante prende-se com a forma radical (fundamentalista, diria, se a expressão não andasse tão por baixo) como WF coreografa: não há a mínima concessão - à facilidade, ao instituído, ao dominante. A experiência de toda a terceira parte traduz isso mesmo: assistimos ao formular de um novo universo, e olhamo-lo com a estranheza e o espanto com que olhamos as coisas verdadeiramente novas.
A peça tem três partes: a primeira é uma espécie de tabela periódica da linguagem ballettica de WF; a segunda é uma experiência visual, em que a componente coreográfica aparece quase como um subsídio da teatralização da cena. Finalmente a terceira é uma revelação, é, por assim dizer, o momento da criação, em que todas as premissas e formulações prévias dão lugar ao que é novo.
Como é que um corpo ocupa, organiza e transcende o espaço de que dispõe?

Antes desta noite mágica, fui visitar a nova catedral do consumo, El Corte Ingles. Devo ser dos poucos espanhois da Lusitânia que nunca tinha entrado num. Ah sim!, porque it's official: já fomos ocupados pelos espanhois. Razão tinha o Clinton, quando, na sua primeira campanha presidencial, atirou (indirectamente, naturalmente, através dos seus ajudantes de campo e da imprensa liberal) para o Bush pai: it's the economy, stupid!. Perdemos na caixa registadora aquilo que a história ganhou no campo de batalha. Tanto pior... Como não sou nacionalista (e sou já muito pouco patriota) confesso que isto não me faz muita confusão. Mas deixa-me um pouco melancólico por achar que houve qualquer coisa que se perdeu.
(uma ideia a la minuta: o conceito de um passado envolto em nevoeiro, brumoso e místico, contraponto do mito sebastiânico do quinto império)

Já que somos espanhois, gastemos como os espanhois: a viagem ao sector de dvd's do ECI revelou-se ruinosa: o caixote dos Padrinhos, em 5-discos-5: 4 com os filmes e 1 extra de material adicional (the usual stuff: entrevistas, making ofs, etc). Mais: o Couching Tiger Hidden Dragon. E, de surpresa, porque ignorava que estivesse cá editado, e que eu andava a namorar aí nos sites estrangeiros: o muito amado Yi Yi, que é a única obra-prima que eu me lembro de ver no cinema nos últimos anos (eu sei que isto é um pouquinho exagerado, mas é só para acentuar o quanto gostei deste filme).

Começa a revelar-se uma verdade: a dança é o espectáculo que tem o público mais bonito. Ontem o CCB era um verdadeiro paraíso de anjos. Um, então, roubou-me os olhos...
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