November 10th, 2001

rosas

A Pianista

É-me difícil falar do filme A Pianista, de Michael Haneke, com Isabelle Huppert. O filme é perturbante e violento, repulsivo e comovente.
Jorge Leitão Ramos, no Expresso, e Vasco Câmara, no Público, propõem leituras mais ou menos coincidentes do filme, tentando justificar o percurso auto-destruidor de Erika com uma certa não-aprendizagem da linguagem sexual do amor, consequência da total entrega da protagonista à música, funcionando a mãe ou, metafóricamente, o culto nacional da grande música, como os carrascos desse défice.
Parece-me, no entanto, que esta visão é um pouco curta, e que A Pianista pode ter uma leitura mais radical, e mais subterrânea. Erika sacrifica à música as suas emoções, nomeadamente as emoções amorosas, construindo em alternativa uma sexualidade feita de sensações, onde os filmes porno, o voyeurismo e a auto-gratificação (nomeadamente de natureza masoquista) lhe concedem o grau de satisfação sexual de que ela precisa, ao mesmo tempo que lhe permitem manter o seu outro mundo, o mundo das relações sociais e do culto espiritual da arte, limpo e impoluto. A ausência de emoções "terrenas" permite-lhe uma total dedicação "pública" à música e ao ensino dela. Bach e a sex-shop convivem de forma absolutamente controlada, organizada e, sobretudo, não conflituante.
A entrada em cena do jovem Klemmer é o bater de asas que desencadeará o desmoronar do mundo perfeito de Erika. Desde logo, porque a obriga a confrontar-se com esse universo não esterilizado das emoções amorosas, das trocas, dos sentimentos. Erika evita ceder o mais que pode a deixar-se "sentir", mas, inexoravelmente, apaixona-se. É puro ciúme que faz com que Erika castigue de forma cruel uma aluna quando esta é objecto das atenções do seu amado.
Depois, Erika, confiante no amor que Klemmer nutre por si, decide arriscar tudo, e tudo, neste caso, passa pela tentativa de encenar o seu estranho mundo de fantasias e sensações; não que ela ignorasse que esses eram comportamentos desviantes e "anormais" (por isso escondia os gadgets dessas fantasias), mas porque acredita tanto no amor que sente, que não resiste à tentação de viver as suas fantasias. Ora "more tears are shed over answered prayers than unanswered ones" (Santa Teresa), e Erika descobre o que já sabia: esse mundo das sensações, et pour cause, é de natureza exclusivamente individual, solitária, e não resiste ao seu "mise en accion".
A cena em que Erika se abraça à mãe, na cama, mais do que qualquer tentativa, ainda que sublimada, de incesto, representa a tomada de consciência de que o seu mundo terminou, ou melhor, de que chegou ao fim o seu perfeito domínio dos dois mundos que coexistem sem se tocarem: os seus mundos colidiram, com a violência que se adivinhava, e Erika desabou.
A Huppert empresta a esta personagem complexa e em constante transformação, a sua mais perturbante característica: a de que todo este tumulto é totalmente interior, tudo se passando sob uma impassivel aparência de normalidade, traída apenas pelo gesto incontido e pela vivacidade do olhar.

Muitas vezes me expliquei como se na minha vida houvesse dois universos paralelos: aquele onde vivo e um outro, entrevisto em breves janelas, onde residiria a minha felicidade. Dessa dualidade, e do tráfico que se estabelece entre dois mundos tão antagónicos, resultam todas as contradições: a luz e a sombra, o sublime e o sórdido, a beleza e a repulsa. Sempre confiei na minha habilidade de domador para manter as pistas do circo em permanente movimento, mas sempre fantasiei, amedontrada mas irresistivelmente, com o dia em que os dois monolitos negros se abrissem um ao outro. Ver, de forma inesperada, esse exercício concretizado no foco de luz, foi uma experiência inquietante.