?

Log in

No account? Create an account

o diário de isherwoord: so long?
rosas
innersmile
"So long"

É esta a última frase escrita no diário do Isherwood no dia 26 de Agosto de 1960. Don't be fooled: ele estava só a despedir-se do diário manuscrito, e, no dia seguinte, 27, retomou-o mas desta vez dactilografado! (btw, a amazon inglesa já fala na edição hardback do segundo volume dos diários, mas eu nunca vi outra referência...)
Durante 3 meses, o livro foi uma espécie de companhia quase diária, e, agora que o terminei (not quite: ainda vou andar mais tempinhos às voltas dos textos introdutórios e dos anexos), parece que já sinto falta dessa companhia.

A grande virtude deste livro, é resultar dele um retrato quase a corpo inteiro (a alma inteira?) do seu autor, ou seja, de todas as suas grandezas e misérias, com todas as suas fragilidades e forças, com todas as suas certezas e dúvidas. Às vezes é um pouco maçador, mas isso é só porque a vida dele, como a de todos nós, às vezes é um pouco maçadora.

Num volume monumental, há duas ou três notas que vale a pena registar: a primeira é a sua relação com a religião, que atravessa transversalmente todo o livro, tal como aconteceu na vida do CI. Isherwood, pouco depois da sua chegada aos EUA professou a religião hindu, aderindo à ordem Vedanta. O que o livro parece evidenciar é que essa ligação pareceu nascer de uma necessidade consciente de uma resposta às suas inquietações espirituais. Mais tarde, o elo forte de I. ao hinduismo pareceu passar mais pela ligação so seu Swami do que pela sua crença em deus.

Outra nota importante é que tem a ver com aquilo a que poderemos chamar o aspecto profissional: CI era um escritor profissional, e é fascinante testemunhar o seu percurso diário de escritor: os bloqueios, as ansiedades, a impressão de que tinha mais passado do que futuro, mas também os sucessos, os impulsos criadores, as experiências, o compromisso. Também, neste aspecto, acompanhamos a sua evolução como screenwriter durante a época em que os estúdios e os produtores eram os verdadeiros donos do cinema de Hollywwod.

O terceiro aspecto determinante prende-se com aquilo que poderemos chamar a sua vida amorosa. Curiosamente, e até ao aparecimento de Don Bachardy, as referências de CI às suas relações amorosas, particularmente à sua natureza homossexual, são sempre esparsas e subtis, o que não deixa de ser significativo num escritor que é, hoje em dia, considerado um histórico do gay rights movement pela sua posição desde sempre aberta e assumida (aliás, é curioso que as referências mais explicitas à homossexualidade são quase sempre por via indirecta, remetendo para os estudos científicos sobre o tema de uma das suas amigas). Só quando DB entra em cena, começa um verdadeiro relato quotidiano da relação, às vezes com um detalhe quase anatómico de todos os avanços e recuos normais de uma relação sentimental: os mêdos, as inseguranças (muitas vezes provocadas pela enorme diferença etária entre eles), os amuos, mas também a estabilidade, a confiança, o aconchego emocional, a crença, desde cedo entrevista mas sempre cada vez mais cimentada, de que aquela relação iria to last forever. Isherwood e Bachardy tinham 30 anos de diferença, e conheceram-se quando Don ainda não tinha vinte anos, no princípio da década de 50. Nunca mais se separaram, até à morte de CI, em 86.

Num modesto esforço a favor do isherwoodismo coloquei uma pequena recensão ao livro na amazon.co.uk.