November 4th, 2001

rosas

maniqueismo

Irrita-me um certo anti-americanismo primário e esquerdista que grassa na nossa sociedade, e nos nossos media em particular. Acho que são meros resquícios de uma época em que os portugueses, libertados do rebanho onde sempre tinham vivido, achavam que a solução dos seus problemas era juntarem-se ao rebanho do outro lado. Vem isto a propósito de certas manifestações ditas da 'esquerda unida' contra o ataque dos americanos ao Afeganistão; curiosamente, quando foi o ataque de 11 de Setembro, esses tipos parece que se obnubilaram dos milhares de mortos (alguns deles compatriotas seus), justificando (porque parecia mal defender) o ataque com a revolta dos oprimidos do sul contra os opressores do norte.
Este maniqueísmo de esquerda irrita-me tanto como a superioridade agressiva da direita. Já não tenho paciência para quem insiste em ver o mundo a preto e branco, ignorando que existimos todos ao longo de um eixo, no qual as nossas posições relativas são meros gradativos do cinzento. Não há bons e maus, policias e ladrões, indios e cóbois. Nós, de um lado, e eles, do outro.
Parece-me que qualquer adulto dito normal, ou seja, que não tenha visto o seu processo de desenvolvimento afectado pelo abuso, pela miséria ou pela tortura, é capaz de ter uma noção intrinseca do mal. O mal é atirar com aviões carregados de pessoas contra edíficios carregados de ainda mais pessoas. O mal é bombardear pessoas pobres e indefesas que nunca tiveram sequer a ilusão de serem senhores do seu destino (como nós temos). O mal é por bombas nas estações de metro. O mal é negar a um povo o direito a determinar a sua história. O mal é desencadear guerras santas contra povos que pretendem fazer do deserto uma nação. O mal é escorraçar as pessoas para guetos miseráveis negando-lhes o direito de viverem na terra da prosperidade.
Ou seja, em Nova Iorque, no Afganistão, na Irlanda do Norte ou na Palestina, não nos devia ser tão difícil reconhecer os traços do mal.
Mas se o mal está em toda a parte, se não toma facção ou credo, como se há-de reconhecê-lo? O que é o mal?
Parece-me que a única noção moral do mal só pode ser a de que praticamos o mal quando estamos a inflingir sofrimento aos outros. Seja sofrimento físico, através da dor, da tortura, da morte, seja sofrimento psicológico, através do mêdo, do terror, da ameaça.
Eu tenho que ter consciência de quando uma acção minha, mesmo involuntária, mesmo inconsciente, está a provocar sofrimento noutros. E, que, nesse momento, estou a praticar o mal, estou a ser eu a face desse instinto imundo e tenebroso, que habita o abismo da minha alma humana.