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agora anoitece tão cedo
rosas
innersmile
Dear Stranger:
como vês, já estou a ouvir o tema do Yusef Lateef de que me falaste. Não imaginei que me pudesses dar uma prenda tão linda. Em reciprocidade (qui pro quo), e também para te compensar da prenda que não te dei no dia em que fui ouver (brigado, José Duarte) a Ute Lemper, dou-te este poema do Eugénio, que vem no último livro dele, editado há dias. Chama-se o livro Os Sulcos da Sede, e o poema Sobre os Cisnes Selvagens de Yeats, e é assim:
Agora anoitece tão cedo - tenho
medo de te perder no escuro.
Lembro-me dos cisnes selvagens
que do lago se erguiam soberanos
iluminado as águas e o céu
do outono ao fim da tarde.
Também eles se perdem
agora na inclinação da sombra.
Que país será o meu? Este,
onde vivo e sou estrangeiro?
O da luz atravessada
pelos cisnes? Sem ti, como saber?


O concerto da Ute foi como podes imaginar: ela é linda, canta tão bem e interpreta verdadeiramente as canções, ou seja, dá-lhes um folgo dramático. Claro que cantou a Little Water Song! Como foi? Ora, como a luz atravessada pelas asas dos cisnes...E cantou as canções do Kurt Weill, e as canções de Cabarett (assim com dois t's e com o r bem pronunciado), e, imagina!, o Ne Me Quittes Pas e Le Port de Amsterdam do Brel, e outras canções do Punhishing Kiss, e no encore o All That Jazz (é nessa canção do Chicago que mora uma das minhas almas clandestinas). E depois ela é simpática e comunicativa. Pois, uma diva!

Também fui ver a exposição do Robert Frank no CCB, Hold Still Keep Going. Não deixes de ver, se puderes. Sabes aquele cliché que se conta de que os indios não gostavam de ser fotografados porque receavam que a fotografia lhes roubasse a alma? Ora aí está: a câmara do RF parece que mostra a alma, não só das pessoas que ele fotografa, mas da própria paisagem, da cidade de NY, do mar de Mabou, da vida que está acontecer quando RF olha para ela. Reconheci algumas das fotografias de uma exposição dele há alguns anos aqui nos Encontros de Fotografia de Coimbra (nessa altura, inventei uma frase que era um trocadilho com o título de um album do Eno: more frank than blank). O prazer de rever, de reencontrar como se essas fotografias fossem o melhor amigo de infância que reencontramos depois de nos termos esquecido dele. Não resisti e comprei o catálogo da exposição: agora vou poder vê-la devagarinho e só para mim.

Para além do cd do Yusef Lateef que me compraste, comprei, claro, muitos livros e cd's. Entre aqueles, uma joiazinha: o Le Livre Blanc, do Cocteau, que é um clássico da literatura sobre o amor that dares not speak it's name. Mais contos (da misoginia) da Patricia Highsmith, a Autobiography of Alice B Toklas da Gertrud Stein, o livro de poemas do Eugénio (e mais outro dele que me ofereceram e que eu já tinha, mas noutra edição não tão bonita como esta que me deram agora), e mais um livro de um poeta brasileiro, Gustavo Arruda - dei-lhe uma trincadela na Fnac, soube-me bem, e trouxe-o para o provar com mais vagar. Musicas, trouxe um Grapelli a tocar Cole Porter, e os últimos da Laurie Anderson e da Tori. Mais uma bd do Ralf Konig e duas revistas da especialidade que comprei naquela livrariazinha de esquina no Príncipe Real.

Por falar no Príncipe, claro que as noites, e os amigos, me levaram até ao BA e ao Príncipe. Sabe-me estar ali, among equals, mas confesso-te que me falta disposição e feitio para tanta frivolidade. Algumas das capelinhas, atá as acho francamente tristes. Mas, como dizem esses meus amigos, deve ser de eu ser rústico.

Como vês, estou de papinho cheio. É, eu devo mesmo ser um simples, mas é assim, com os olhos lavados, que me parece que me sinto verdadeiramente feliz.
Fica bem,
innersmile

ps - em menos de 48 horas, fui duas vezes duas ao Haggen Dasz! Claro que é vício.