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momento num café
rosas
innersmile
O Isherwood conta esta teoria filosófico-cientifica do Gerald Heard: every living organism can be said to be a tune or pattern. If we could learn our own human tune we should know how to live our lives, instead of resisting the changes in them - trying to play the largo passages allegretto, etc".

De alguma forma esta é uma das minhas filosofias de vida: tentar "ouvir" a minha vontade, o meu "inner self", tentar tomar as decisões que sinto como sendo as mais adequadas ou correctas. Não tanto viver um dia de cada vez (carpe diem), mas viver cada dia da forma como eu sinto que ele deve ser vivido. Ouvir a razão, o coração, o bom-senso e até o instinto de auto-preservação, e fazer aquilo que me parece ser melhor para mim, com a consciência de que ser bom para mim passa sempre por ser bom para os outros (claro que às vezes isto não acontece, às vezes é mesmo preciso ser mau para os outros, ou mesmo ser mau para nós próprios, mas, caramba!, we're no angels...).

Também tenho a rigorosa consciência de que nem sempre, e se calhar até raramente, ouço essa minha música interior, nomeadamente no que se refere às mudanças de que fala o Gerald: muitas vezes por mêdo (do desconhecido, do risco, de trocar o certo pelo incerto, de perder o que tenho sem ganhar nada em troca...), e às vezes, mais prosaicamente, por comodismo; outras ainda, por achar que tenho um compromisso com outros (poucos, mas muito bons) que não posso deixar de honrar.
O que é interessante nessa teoria do Gerald, é que ele a aplica a todos os living organisms, e, se calhar, um dos nossos males é estarmos, ou acharmos que estamos, muito longe da verdade simples da matéria (apenas a matéria vida era tão fina), magnifica e esplendorosamente complexa, como são todas as coisas verdadeiramente simples.

O meu materialismo cada vez me faz mais ansiar por uma espécie de bíblia biológica, de livro sagrado da célula e do átomo, onde resida o único segredo moral do bem: estar vivo é estar à morte (Grabato Dias?)
É engraçado, mas este post pretendia-se glorioso, libertador. Ao invés, termina com uma dose de soturnidade de todo indesejável. Mas que, se calhar, é inevitável sempre que nos tentamos libertar desse peso morto que é a alma humana!


Hey!, agora reparo que o poeta Manuel Bandeira disse isto muito melhor (ohhhh, quão infinitamente melhor...) neste poema admirável que se chama Momento Num Café:

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta