October 6th, 2001

rosas

Caetano no Coliseu

Concerto do Caetano, ontem, no Coliseu. Sala cheia como um ovo, só material combustível, pronto a pegar fogo com o simples raspar de um fósforo.
Esta foi pelo menos, seguramente, a quinta vez que o vi ao vivo. E cada espectáculo é sempre novo, porque Caetano vai buscar canções sempre diferentes ao seu extenso reportório e dá-lhes sempre novos arranjos e novas abordagens. Brinca com canções ou com pedaços de canções, usando-as como aquilo que elas são: obras acabadas e, ao mesmo tempo, matéria-prima para outras obras.
Na véspera do concerto eu tinha estado a ouvir o album Bicho, de 77 ou 78; logo a abrir, Two Naira Fifty Kobo, e, durante o concerto, mais duas canções:Tigreza, que eu nunca tinha ouvido ao vivo, e Gente.
O concerto teve, tenho a impressão, mais surpresas do que o habitual. Mesmo o habitual momento íntimo não serviu, desta fez, para o habitual desfile de sure shots.
São sempre momentos de profunda emoção estes encontros com Caetano Veloso. O primeiro disco que comprei dele foi, precisamente, Bicho, nos anos 70, mas já antes disso o ouvia em discos e cassetes velhinhas do meu irmão(Maria Bethania please send me a letter I wish to know things are getting better; o disco TODO do concerto ao vivo Caetano/Chico foi o meu Maio de 68, o meu 25 de Abril, a minha Revolução Francesa). Claro que é um dos meus músicos preferidos, mas mais do que isso, as suas canções são parte integrante (e muitas vezes principal) da banda sonora da minha vida. A canção London London foi, durante muito tempo, aquilo que melhor resumia a minha vida na altura, e de tal forma que eu hoje sinto que essa canção faz parte da MINHA história, é minha. Houve canções do Caetano que me ajudaram a conhecer-me e a definir-me. Vaca Profana foi uma delas: Sou tímido e espalhafatoso. Depois há uma profusão de temas recorrentes em Caetano que são aqueles a que sou mais sensível; por exemplo, as canções sobre cidades - além dessas duas, ainda Sampa:"alguma coisa acontece no meu coração" e Cajuína, que ontem ele cantou, e em que eu encontrei, exposto, o meu mais absoluto amor (Existirmos, a que será que se destina? Pois quando tu me deste a rosa pequenina Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina Do menino infeliz não se nos ilumina Tão pouco turva-se a lágrima "clandestina" Apenas a matéria vida era tão fina E eramos olharmo-nos intacta retina: A cajuina cristalina em Teresina - entre aspas, a modificação que eu fiz à letra para ela me caber melhor).
Por tudo isto, quando as luzes se apagam e Caetano Veloso entra, eu fico sózinho no Coliseu. E, de certo modo, é a minha vida que eu vejo ali em cima do palco.