September 19th, 2001

rosas

Lj

Tento impor-me a mim próprio a regra do Isherwood de fazer pelo menos duas entradas semanais no diário. O problema é a terrível falta de assunto. E eu não quero, absolutamente, que isto se transforme numa espécie de muro das lamentações dos meus estados de espírito mais ou menos entediantes. Talvez seja desta que eu ceda mesmo a uma ambição antiga de fazer um diário de uma personagem totalmente inventada. Que, à falta de melhor, posso ser eu próprio. Cá está: é mesmo esta espécie de disparate que é de evitar a todo o custo.

Na única noite em que andei a deambular sózinho pelo Funchal, fiz um poema. Gravei para o telemóvel as diversas versões até assentar na que me pareceu melhor. Fiquei admirado: acho que o poema me saiu muito bem. Tão bem, que tenho andado à pesquisar, pois nada me garante que não seja um palimsesto de outro poema qualquer. Não era a primeira vez que acontecia: escrever um poema para mais tarde descobrir que afinal era apenas uma variante de outro poema. No dia seguinte, um anjo sentado num banco de um jardim público desencadeou outro poema. Desta vez, estava com o resto da manada, de modo que tudo se passou de um modo muito discreto e interior. Estes outbursts de regresso à poesia, sendo espontâneos, não deixam de ser agradáveis, mas ao mesmo tempo dolorosos: agradáveis por sentir que, afinal, há ainda uma corda vibrante qualquer que resiste ao deserto; mas dolorosos, porque me fazem lembrar um destino outro ao lado do qual passei. Como aquela metáfora (filme do Woody Allen....qual? O Stardust Memories? hum... acho que não...então qual?) do tipo que está sentado num comboio parado numa gare e, ao parar na gare ao lado outro comboio, ele vê lá dentro, afastando-se ao ritmo cada vez mais rápido do comboio que inicia a marcha, a versão feliz de si próprio.

Há uma coisa que me incomoda bastante: a partir do momento em que comecei a escrever aqui, ou melhor, a partir do momento em que me apercebi de que havia pessoas que vinham cá ler isto, automaticamente comecei a silenciar determinadas coisas. Que estupidez. É por isso que, se calhar, tenho tanta falta de assunto: silencio a única coisa de que me apetece falar, e, possivelmente, o único tema acerca do qual terei eventualmente alguma coisa a dizer. Vês de que é que eu estou a falar?