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O Diário de Bridget Jones+Crime de Fortaleza
rosas
innersmile
Um daqueles casos muito raros em que o filme é melhor do que o livro que lhe deu origem: o Diário de Bridget Jones é divertido e resulta melhor do que o livro. E isso deve-se, integralmente, ao desempenho de Renée Zellweger, que compõe uma personagem absolutamente verosímil, mesmo nos seus excessos mais improváveis. O grande triunfo de qualquer interpretação é fazer com que nós, os espectadores, acreditemos na personagem e na sua verdade.

O assassínio dos seis empresários portugueses no Brasil é, como quase todos os crimes, fascinante. Agora que este diário é "público" tenho que ter cuidado com este tipo de afirmações, não vá alguém achar que...;-) O crime de morte é sempre um momento que põe à mostra os, na expressão de José Saramago, abismos da alma. É sempre um momento de ausência de auto-controlo, em que o homem mostra aquilo que é verdadeiramente capaz. Tenho a teoria de que todos somos capazes (ou sujeitos) de viver um momento desses, caso a oportunidade e as circunstâncias, a isso levem ou obriguem. A questão está apenas na nossa capacidade, em cada momento, de resistir a essa pulsão de resolver os nossos problemas através da morte do outro, mesmo que ele não faça parte desse problema. Ainda Saramago, numa citação que eu li recentemente, concede que a violência é inata ao homem-animal; aquilo que o Homem (humano) lhe acrescenta é a crueldade (não me lembro exactamente da citação mas o sentido era este).
Ora, esta história é exemplar. Está lá tudo. O Luis Miguel, autor do plano do crime e mandante do crime material, é um homem aparentemente normal, amigo de alguma das vítimas e que deixou boas recordações entre os amigos que tinha antes de ir para o Brasil. Levado pelas circunstâncias (as más-companhias são argumento que aqui não colhe) planeia um crime hediondo e excessivo. No segundo depois, arrepende-se e comove-se com o resultado do crime. A questão é que o desequilíbrio de personalidade que demonstra não é anormal, no sentido que que haja sinais de loucura. Por razões que não consigo bem precisar, sinto, além disso, que este é um criminoso tipicamente portugues; há aí uma marca qualquer reconhecível no comportamento dele.
É também evidente que o plano era maior do que a capacidade dos criminosos em o executar, e, por isso, a partir de certa altura, escapa naturalmente ao controlo de todos. Já não são os criminosos que conduzem os acontecimentos, antes se deixam conduzir pelo próprio crime que puseram em marcha. Só assim se percebe o quadro de violência excessiva, e desnecessária do ponto de vista da economia do crime planeado. Claro que tratarem-se de pessoas básicas, pouco maduras do ponto de vista do desenvlvimento da personalidade, contribuiu para isso.
Sou só eu a notar, ou este crime parece mesmo o Reservoir Dogs, do Tarantino. Numa versão terceiro mundo, misto de paraíso tropical e favela, mas, do ponto de vista do descontrolo dos acontecimentos e dos personagens, quase um papel químico. Tenho de rever o filme para ver se esta tese tem sustentação
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