August 2nd, 2001

rosas

Errands

Cheguei aqui ao W um bocado tarde, e não apenas porque me tenha levantado tarde (mas também por isso, claro). A minha mãe ontem caiu, o que significa um set back considerável na sua recuperação. Ficou, para além de magoada, muitíssimo desanimada. De modo que, antes de sair ainda fui comprar o pão e os jornais. Depois fui ao banco depositar o cheque que o IRS fez o favor de me mandar. A primeira vez que eles me devolvem dinheiro. Eu sei que é apenas porque estou a pagar um balúrdio pelo empréstimo da casa, mas, de qualquer forma, o Estado dar-nos dinheiro, sem ser por um vínculo tipo esclavagista, é sempre uma novidade animadora. Que digo eu! Haverá coisa mais esclavagista do que o IRS? Bem, seja como for, é sempre melhor receber do que pagar ainda mais, como habitualmente me acontecia.
Agora vou sair para almoçar e quero passar na livraria
  • Current Music
    John Cale - Hallelujah, do L. Cohen
rosas

Diário de São Miguel

A Charles telefonou a dizer que está tudo confirmado para a Madeira: 5 a 10 de Setembro, Hotel do Carmo, no centro do Funchal. Estou, claro, entusiamado com a ida, até porque vão ser AS minhas férias este verão. O facto de ser um excursão familiar baixa-me um pouco as expectativas, tal como o facto de ficarmos em quartos triplos. Mas a perspectiva de sair daqui, de apanhar um arzinho diferente, já me anima.
Fui dar uma volta a pé, com o meu pai e com o Gugu, depois do jantar. O Gugu vai estar 2 semanas fora e a verdade é que eu acho que vou ter saudades dele.
Em 1999, Julho, estive 5 dias na ilha de S. Miguel, Açores. O que se segue é um diário de alguns desses dias, os 3 primeiros. Apesar das intenções, acabei por nunca o passar para o bugs, e agora também não vale a pena: são o único apontamento referente a esse ano. Assim, saltam para aqui à laia de homenagem à ilha verde. Aí vai.

É quase meia noite de Segunda-feira, 26 de Julho. Estou sentado na varanda do meu quarto de hotel, olhando a Marina, o Clube Naval, e a baía que se estende até à Ponta da Caloura, onde impera um enorme cargueiro todo iluminado.
A primeira impressão de Ponta Delgada, onde cheguei às oito da manhã, foi de um cidade branca, pacata e ordenada. Uma cidade onde é possível viver com tranquilidade uma vida inteira, ou, quando é a única opção admissível, capaz de nos conduzir à angústia mais suicida. Apercebi-me disso quando me chamaram a atenção, na antiga parada de S. José, para o banco de rua onde Antero se terá suicidado.
Apaixonei-me, pouco depois, por uma sensualidade à flor da pele, pela forma aparentemente abandonada como os corpos se oferecem à cidade. O tipo de sensualidade que só é possível em locais, como este, de uma religiosidade profunda, em que o corpo é a única desforra face ao temor reverencial.
Às primeiras horas da manhã, enquanto a cidade ainda despertava para o seu bulício quase cosmopolita, visitei 4 igrejas: S. Pedro, S. Sebastião (Matriz), do Santo Cristo e de S. José. Impressionou-me a fachada destas 2 (um estilo que é frequente na ilha, a fachada larga, ligando-se aos restantes blocos da rua), e imagem, exuberante, do Santo Cristo.
No Porto da Caloura, à magia do mar aliou-se uma visão: dois anjos, feitos de bronze e sal, ferindo de beleza o meu olhar.
Mais à frente, Vila Franca do Campo e o ilhéu - uma vontade irresistível de me atirar à agua e de nadar as poucas centenas de metros que o separam da ilha. Vai ser daquelas renúncias que vão custar a passar. Em cima, no Miradouro da Senhora da Paz, o fim da tarde e o nevoeiro baixo que pairava sobre a cidade, juntaram-se para, pela primeira vez, me mostrarem que a fantasia e a misteriosa magia que tornam esta ilha um lugar de lendas e assombrações, só têm uma verdadeira pátria: o milagre natural que só o planeta Terra é capaz de fazer. E que a origem de tudo é a água.

De pé meu canto não te rendas
Saúda o mestre das oferendas
Canta canta coração
Que o poeta só te dá o que lhe dão
De pé memória do futuro
Há sempre luz ao fim do escuro
Numa ilha só morre o que lá está
O conta no que foi é o que será
Esta palavras da letra da canção de José Mário Branco sobre Antero, e que também fala desta ilha de S. Miguel, acompanharam-me hoje, 27 de Julho, quando subia para o incrível Miradouro do Escalvado. Apercebi-me, devagar e a olho nú, que a Terra é redonda, que é circular o mar que nos rodeia, que o céu que nos protege forma uma apertada abóbada à nossa volta. O Miradouro do Escalvado é isso apenas: uma muda lição da mais primordial e simples geografia humana.
Em baixo, na fajã, um tapete raso que entra pelo mar no fundo da falésia abrupta, um edifício branco (uma casa? um posto técnico ou científico?) imponente de fragilidade, abandono, e resistência contra uma adivinhada solidão. Uma imagem tão depurada, que, um segundo depois de a vermos, ela adquire a perenidade das obras clássicas. Um plano tão perfeito, que espanta nunca o ter visto num filme ou numa fotografia.
O resto do fim da tarde passou-se a percorrer a costa noroeste da ilha, considerada a sua parte mais pobre. Um sentimento de deja vu instalou-se, que consegui identificar: aquela viagem, de oeste para leste, à esquerda o mar imenso, à direita o imenso verde da terra, era um estranho palimpsesto de um outro fim de tarde, na península de Kerry.
Antes, por volta das duas da tarde, tinha ido visitar o que me pareceu ser um aeroporto de fantásticas naves inter-galáticas - a caldeira das Sete Cidades, olhada de um ponto que merece o seu nome, Vista do Rei. Desci à povoação, entre alas de hortênsias, e, contornando a Lagoa Azul, fui até ao fim da estrada, onde começa o túnel de escoamento das águas da lagoa para o mar (no passeio da tarde visitei a outra extremidade do túnel, perto de Mosteiros. Este túnel, construído entre 1930 e 1937, dá um sentido original à expressão do verso da canção do Zé Mário Branco - fica-se a perceber, com exactidão, o que é uma luz ao fundo do túnel). Aqui no fundo, o anel formado pela crista da cratera agiganta-se. Sob o círculo de azul do céu, lá no alto, e sobre o suave manto azul das águas da lagoa, por um momento quase desejamos ser esmagados pelo verde diverso e carregado das escarpas das montanhas.

Um dia, 28 de Julho, no tecto do mundo. Primeiro, das caldeiras da Ribeira Grande, onde comemos o cozido, até às Furnas, passando pelo Monte Escuro, Lagoa do Congro e Pico de El-Rei; nas Furnas impressionaram-me as portas para o centro da Terra, como se, esticando o braço, a mão atravessasse para o outro lado do espelho de Alice. Depois, pela crista da cratera, passando pelo Gafanhoto e o Salto do Cavalo, até regressarmos à costa norte da ilha impossível. Bordejando sempre a costa, contornámos o Nordeste, até ao cais do Miradouro da Madrugada. E o regresso ao topo. O Pico Bartolomeu, com uma estrada equilibrada entre as duas vertentes escarpadas da montanha. Atravessámos a Serra da Tronqueira através de uma picada de terra, com paragem para frente ao Pico da Vara, o ponto mais alto da ilha.
No regresso, nova passagem por Vila Franca e pelo Porto da Caloura.
À noite, bebendo uma Margarita no bar Long John ao som de O Amor é Louco (não façam pouco desta loucura, lá porque esquece nunca merece uma censura, Só quem não sente fala da gente, já percebi, Que vão falando, também eu ando louco por ti), revelou-se-me a ideia de como esta terra, por entre cigarros Além Mar e cerveja Especial de Melo Abreu, é o cenário perfeito de romances atmosféricos de amor.
E sempre os anjos oferecendo ao olhar a sua fraqueza.