miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

Por causa de uma exposição que está no Porto, e que eu tenho obrigatoriamente de ir ver, andei a fazer arqueologia do innersmile, à procura de uma entrada onde escrevi sobre o trabalho do artista.
O que vem aqui ao caso, é que quando andamos à procura de uma coisa, encontramos muitas outras de que não andávamos à procura, e que por uma razão ou outra, nos prendem a atenção. Foi o que aconteceu. Fui encontrando outras entradas no innersmile, contos, poemas, e é engraçado como umas vezes as entradas não me dizem nada, leio-as quase como se tivesse sido outra pessoa a escrevê-las. Mas há outros textos em que mal começo a ler, vivo uma espécie de experiência dejá vu, vêm-me logo ao espírito os sentimentos e as emoções que estiveram por detrás do texto, aquilo que eu senti e que me levou a escrever. É como que um recriação da circunstância em que o texto nasceu.
Aconteceu ainda há pouco. Ao ler um poema, fui automaticamente transportado para o momento em que as palavras, em que os versos, me vieram à cabeça, pelo menos as palavras iniciais, aquelas a partir das quais o poema se foi compondo.
Visualizei o que vira então, a bicicleta presa ao gradeamento, a figura ligeira e ágil a atravessar a avenida pelo meio do trânsito. Eu estava sentado num café, voltado para o exterior. Era o fim do Verão, ou talvez até fosse já Outono. E reconstruíram-se os sentimentos que me assaltaram então e que tiveram de ser resolvidos através das palavras, muitas vezes a única forma que temos de desatar um nó espiritual, ou pelo menos a melhor forma que conseguimos arranjar para ultrapassar uma perturbação, um transtorno. Uma certa tranquilidade perante a beleza dos gestos, dos movimentos. A angústia de estar a presenciar algo que não possuo, que já tive e perdi, ou que nunca tive ou irei ter, o terrível vazio que nos provoca o inacessível. Até a inveja, uma certa raiva surda, por haver quem possua essa suprema leveza dos pássaros e eu ser sempre um réptil colado ao chão. Há sempre essa dualidade, ao mesmo tempo opressiva e libertadora: por um lado comove a visão da beleza, enche-nos de alegria, de felicidade, faz o sol brilhar com mais intensidade, mas, por outro, há um sofrimento, uma dor, uma tristeza, por sabermos que toda a beleza do mundo ser-nos-á sempre negada.
Tags: caro diario
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