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everything in its right place

O jazz é como um icebergue a que se aplica o princípio socrático de que à medida que vamos sabendo mais, maior é a consciência da vastidão do que não conhecemos. E mesmo à superfície do icebergue, só vamos realmente conhecendo os pequenos pontos onde vamos aportando.
Eu conheço muito pouco. Mas tenho umas paixões assolapadas: o John Coltrane (acho que foi o meu primeiro amor no jazz, e não há amor como o primeiro), as cantoras (a Ella, a Billie, a Petra), o Thelonious Monk, o Miles Davis e, de um modo geral, os pianos (o Michel Petrucciani, o Fred Hersh, o Keith Jarret, o Bill Evans, o Oscar Peterson, o Pinho Vargas, o Mário Laginha, e outros; aliás, agora com a pancada do Alfred Brendel que se junta ao Glenn Gould, na música clássica, cada vez me convenço mais que sou do tipo ‘pianeiro’).
E o Brad Mehldau, de quem comprei hoje o último cd, Anything Goes, e o sexto a rodar cá em casa. Acho que comprei o meu primeiro cd do BM por ele ser pianista, jovem e bonito. E fui insistindo porque ele fica sempre muito giro nas capas. Ora, no jazz, o tempo é uma coisa tramada no desenvolvimento e aprofundamento de uma relação. Podemos ouvir de passagem uma coisa e ela não se agarrar a nós, mas se deixamos o tempo actuar, é inevitável que ela nos penetre sob a pele e se vá instalando pelo meio dos nossos músculos, espalhando-se pela corrente sanguínea, até nos preencher por completo.
Há sempre uma razão para os discos do BM serem especiais. Pode ser o It Might As Well Be Spring. Ou o Blackbird. Ou Monk’s Dream. Ou o Cole Porter. Ou os Radiohead. Neste Anything Goes, como se deduz do título, há Cole Porter, há Radiohead (Everything In It’s Right Place), há o Still Crazy After All This Years, do Paul Simon, há o I’ve Grown Accustomed To Her Face, do My Fair Lady, há Smile, de Charles Chaplin. Entre outras. Tudo versões, que se há coisa que não há neste disco, ao contrário do que é habitual, é originais do BM.
Comparativamente com o anterior, é um disco mais simples, de regresso ao trio essencial (BM, Larry Grenadier no contrabaixo e Jorge Rossy na bateria), sem as ‘ousadias’ e as colaborações de Largo. Um disco muito melódico, muito suave, arranjos subtis e requintados. Um disco a pedir finais de tarde de Verão.
Tags: música
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