miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

conto

Há uma luz que se mantém ainda acesa na fachada sombria do prédio. Já não passa ninguém na rua. Suspensos à tua frente os faróis vermelhos do último autocarro que passou antes da madrugada. Estás sentada na berma do passeio, e és uma cidade assassinada. Abandonada pelos homens, os teus temores são os teus filhos. Sonhas com o paraíso do arrabalde, como se o verde fosse mais verde depois do fim da estrada, como se o céu pudesse nascer mais azul amanhã, como se houvesse fim para a chuva fina que te enregela o sangue. Estás perdida. És uma mulher desertada, a quem pouco mais resta do que o consolo das lágrimas que te esborratam a pintura. Tens as tuas roupas, que guardas como se fossem um relicário, a memória de um monumento que explodiu há muito tempo, o sudário que enxugou as lágrimas de outras mulheres. Tens as chaves afundadas na carteira, que riscam o esmalte da tuas mãos tão pequenas e desesperadas, tão privadas de ternura, tão suave a tua pele antes da rugosa acidez desta noite. Tens um par de óculos escuros que agora usas colado à nuca. Tens um cigarro interminável que se escapa em fumo por entre os dedos e por entre os lábios. Tens os olhos marcados de lágrimas, já disse? Os teus olhos estão tão fundos que são duas crateras iluminadas de breu. Mas tudo isso que tens não basta para te suavizar a vertigem do vazio, o sangue que te escorre pelos braços nus, os sapatos sem alma que te gretam os pés descalços. Deixaram-te em ferida, e tu agora estás suspensa entre o coágulo de sangue e a memória futura da cicatriz. És uma chaga que ainda não desabrochou.

Levantas-te num passo desamparado. Cambaleias, como se o teu corpo fosse um esboço desajeitado, um esquisso num papel amarrotado. Tentas atravessa a rua, tens a vaga promessa de que há uma janela acesa e que por isso haverá ainda redenção e aconchego, mas não consegues atravessar a rua. Há uma corrente forte que te repele e te empurra de encontro aos muros. Vacilas. Tacteias as paredes, à procura de algum desvão. Sabes que te seria mais fácil desceres a rua, deixares-te ir, rolares aos safanões pela passeio até te esbarrares de encontro a uma árvore, ou um caixote de lixo, ou os pneus de um automóvel. Mas sabes que se te deixasses ir, te afastarias irremediavelmente da luz que te acena. Tentas segurar-te ao ferro de um portão, à grade de uma cerca, mas rasgas as mãos.

Estás agora tombada sobre o passeio, és uma mulher murcha e exangue, espezinhada pelos cães que te farejam as feridas. Tentas fixar o olhar na luz que brilha do outro lado da rua, mas ela é uma grinalda que gira e rodopia à tua frente. Tu sabes que todo o mal está em ti, que fora de ti só há a cidade, que és tu que estás ébria como uma mochila grávida de explosivos.

Chove agora com mais força. Há uma luz que se apaga.

Há-de amanhecer, esse teu desespero. Há-de ser outra vez feito de manhãs ensolaradas. Há-de andar de braço dado com o canto dos pássaros, que ouves quando atravessas o jardim à procura do dia. Há-de caminhar pelas ruas, de novo enfeitado de esperança. Há-de estar limpo, como uma rua lavada pela água da chuva.

Tu estás vazia, desterrada, fragmentada como uma explosão. Húmida por dentro e gretada à superfície. Mas ouves tilintar lá em cima, ao topo da rua? Ouves as campainhas que germinam da calçadas e parecem guizos feitos de ouro? Ouves os sinos que se espalham pelos telhados e descem pelas paredes e pelos muros como ondas de manhã? Ouves quem te chama?
Tags: contos
Subscribe
  • Post a new comment

    Error

    default userpic
    When you submit the form an invisible reCAPTCHA check will be performed.
    You must follow the Privacy Policy and Google Terms of use.
  • 0 comments