miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

lost in translation

Há filmes que nos chamam, e há filmes que nos chamam desde longe. Este, andava a chamar-me há muito tempo. De modo que ontem acabei de jantar, meti-me no carro, entrei na auto-estrada, saí em Aveiro e fui ao Oita.
E valeu bem a pena. Lost In Translation é um filme diferente, estimulante e divertido. Parte de um dispositivo muito simples: um actor de cinema em fase descendente e obrigado a fazer a ronda do mercado publicitário encontra-se, num hotel em Tóquio, com a jovem esposa negligenciada e em avançado estado de dúvida pelo seu marido fotógrafo. Como disse Bill Murray na apresentação do filme na cerimónia dos oscars, um homem perdido e uma mulher esquecida. Mas o que é admirável no filme é a forma como ele se vai construindo. Desde logo, a maneira como as personagens nos são apresentadas, como se o olhar da câmara fosse quase neutro, sem recorte psicológico, vivendo quase exclusivamente da capacidade dos actores darem corpo às personagens. O resultado é surpreendente, porque passados poucos minutos estamos completamente ‘agarrados’ à verdade dos personagens, acreditamos no inefável vazio que o acumular de estímulos sensoriais lhes provoca, somos cúmplices do seu desencanto afectivo. Depois o desenvolvimento narrativo do progressivo envolvimento entre os dois é sempre feito no domínio do subtil, as verdades nunca nos são apresentadas com a certeza e a definição de um dado estatístico ou um registo biográfico, porque, sabemo-lo todos, nas nossas vidas as coisas nunca são assim a preto e branco. Finalmente, tudo é feito com humor, com leveza, com um tom muito cool, para o que contribui decisivamente o registo que Bill Murray empresta ao seu desempenho.
Mas há muitas outras coisas que ajudam a fazer de LiT um filme muito especial. A banda sonora, por exemplo, e refiro-me não só à trilha musical, mas a todo o registo sonoro do filme, que é tanto para ouvir como para ver. Não há muitos filmes assim, que saibam explorar tão bem, do ponto de vista narrativo, a captação do som; se estivermos com atenção, aquilo que estamos a ouvir está-nos sempre a contar coisas acerca das personagens, do próprio evoluir da história. Outra irresistível qualidade do filme, que aliás o define, é a sua ligação diria orgânica à cidade que lhe serve de cenário. Aquela história passa-se em Tóquio, e só em Tóquio se poderia passar, ou pelo menos daquela forma. O constante ruído de fundo, sonoro e visual, o feerismo das imagens, a forma como o filme nos apresenta uma cidade que em cada fotograma parece sempre ultrapassar o tamanho do homem que a criou (é sempre uma cidade maior que o homem, quase ao ponto da angústia), a sensação recorrente de que se está num planeta diferente, numa realidade mirabolante e completamente "dessintonizada", são sempre o contraponto indispensável ao deambular das personagens. A metáfora do título também contribui para esta espécie de desacerto entre o que se passa ao nosso redor e o que se passa ‘cá’ dentro, como se houvesse sempre alguma coisa que se perde na tradução que os olhos da nossa alma fazem do mundo à nossa volta.
Aliás, para mim o filme foi sempre vivido nesse confronto entre a saturação do meio e o esvaziamento interior sentido pelos personagens, como se o próprio filme se sentisse perplexo pela possibilidade de duas pessoas que se sentem tão vazias se poderem encontrar no meio do caos.
Um filme a rever, que assegura, através de Sofia (que foi a primeira mulher a ser nomeada para os oscars de melhor filme e melhor realizador), que o nome Coppola continua a brilhar intensamente no universo estrelar de Hollywood.
Tags: cinema
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  • 18

    Comecei a escrever este diário online no dia 30 de Julho de 2001. Durante 16 anos, escrevia sempre nesse dia um texto de reflexão sobre o próprio…

  • azul velho

    Esta foto tem mais de 11 anos, foi feita em Março de 2008 na piscina de um resort em Hoi An, no Vietname, por um outro hóspede que eu não…

  • agosto

    Estive mais uma vez internado no hospital, desta vez para tirar o rim direito. Ou seja, neste momento não tenho rins nem bexiga, e comecei a fazer…

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