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zatoichi

Zatoichi é um filme aparentemente desconcertante. E isto num realizador que, apesar de a sua imagem autoral estar geralmente associada aos filmes brutais de yakuzas, tem já na sua carreira uma dose razoável de surpresas. Ou seja, não é pelo ineditismo que este mais recente filme de Kitano surpreenderá muita gente. Desta vez, Kitano virou-se para uma história tradicional do século XIX japonês e fez um filme de samurais. Um filme de samurais que, tal como outros filmes de Kitano, não hesita em recorrer ao burlesco para fazer um contraponto à extrema violência que, tal como nos demais, é também uma imagem de marca deste filme. Finalmente um filme que leva mais longe (demasiado, acharão alguns) o sempre incensado aspecto coreográfico dos filmes de Kitano; aqui, a marcar os andamentos do filme, temos uma série de apontamentos musicais em que a cena se organiza como numa coreografia (sim, um pouco à maneira de ‘Dancer in the Dark’), para tudo culminar num apoteótico e já famoso sapateado final.
De resto, o filme retém todas as marcas autorais do cinema de Kitano: o rigor na composição do plano, um intenso cromatismo, a estilização da violência (notáveis os jactos digitalizados de sangue a transformarem o écran numa espécie de tela gigantesca e animada), a falta de textura psicológica das personagens (que são sempre ou de uma psicologia muito primária ou totalmente densa e imperscrutável) como recurso para o total centramento na acção, o uso narrativo da elipse, a utilização, como em ‘Dolls’, de filtros para distinguir os planos narrativos, a utilização dos já famosos apontamentos ‘kitanianos’ como a cena à beira mar.
Por isso, dir-se-ia que, com Zatoichi, Kitano é um realizador numa encruzilhada: por um lado, precisa de novos temas, de novos universos narrativos – a vida não pode ser um longo filme de yakuzas; mas, por outro, não consegue abandonar um determinado dispositivo – chamemos-lhe, para simplificar, o ‘sistema Kitano’ – talvez com receio de que não haja cinema para lá desse dispositivo.
O que é louvável é que Kitano assume o impasse (não sabemos ainda se o resolverá, e como) da maneira, aí sim, mais desconcertante e arriscada. Em vez de se refugiar num tipo de história mais seguro, quer para si quer para os seus espectadores, Kitano vai buscar à tradição cinematográfica do seu país, à sua história de entertainer, e aos seus fascínios cinéfilos, uma mistura de elementos, uma espécie de ‘free-for-all’, que nunca recua perante excesso, mesmo quando o tom é de contenção. Encontrando-se Zatoichi, por isso, num cruzamento entre uma evidente vontade de transgressão e um certo conservadorismo, é assinalável que não se deixa paralisar por isso, e constitui-se, se não numa fuga para a frente, pelo menos num salto para o ar.
Claro que eu poderia agora dizer que se aguarda com crescente antecipação o próximo filme de Kitano para ver se ele consegue resolver o impasse e o modo como o fará. Mas é treta: a antecipação é mesmo porque continua intacto o prazer de ver o cinema de Takeshi Kitano.
Tags: cinema
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