miguel (innersmile) wrote,
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silêncio

A propósito de um post na Janela Indiscreta sobre a peça 4'33'' de John Cage, que fazia referência a um artigo na edição de ontem do Público (está o link no post da Janela), e dos comentários que esse post mereceu, alinhavei algumas ideias.
Só para ficar aqui com o registo disso, transcrevo para aqui o que escrevi lá.

O Cage compôs, e compôs muito, e é no âmbito do conjunto da sua obra que pode ser analisada esta peça dos 4'33''. Não nos podemos esquecer, por outro lado, que o Cage fez parte de uma vanguarda que, no nosso tempo, questionou muitas coisas, muitos cânones, e que esse questionamento sempre revestiu um lado de provocação.

No entanto, eu penso que o verdadeiro alcance e provavelmente o melhor sentido que faz uma obra como 4'33'' é, precisamente, suscitar perguntas e reflexões e dúvidas e perplexidades como as expressas nos comentários anteriores. Não é isso a arte? Julgo que o Cage ficaria satisfeito se lesse os comentários ao post da Janela e acharia que tinha cumprido o seu objectivo.

A peça é para ser apresentada ao vivo; na lógica de que não há silêncio, a ideia é escutar o som que fica quando ouvimos aquilo que julgamos ser o silêncio. E só ao vivo conseguimos ouvir a respiração dos intérpretes imóveis, as tosses do público, as cadeiras a ranger, o avião a passar por cima da Gulbenkian (ou whatever), o metro a entrar na estação, o satélite a orbitar lá por cima das nossas cabeças.
Neste sentido o Cage não compôs o silêncio, fez antes uma elegia ao som. Claro que seria fácil partir daqui para especular sobre todo um universo de simbologias, mas presumo que o Cage se riria da maior parte delas.

Parte do gozo é que também fiz estas perguntas quando estava a ler o artigo, tentei imaginar o auditório todo calado, o maestro com ar concentrado a olhar fixamente para a pauta, formulei mutas vezes a pergunta "como será?"

O João César Monteiro fez uma coisa parecida, aparentada digamos, com a Branca de Neve, e foi possivelmente dos filmes ou dos objectos artísticos mais polémicos e discutidos em Portugal. E, paradoxalmente, daquelas polémicas em que participaram mais pessoas. Ou seja, para além de tudo foi um filme muito democrático... Mas páro: já estou a ironizar e a descambar.
Tags: música
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