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St. Michael

Entrevista (e uma capa bonita) com Michael Stipe, dos REM, na edição de Janeiro da Attitude. Uma franqueza e uma honestidade desarmantes, mas balanceadas com a dose de recato e pudor que alguém que vive há anos sob o intenso olhar dos fãs e dos media, aprendeu a desenvolver para não perder a alma.
A revista chama-lhe St. Michael, e realmente parece haver ali uma candura um pouco beatífica. Mas uma leitura atenta, mostra que essa ‘straightforwardness’ (no pun intended...) é apenas aparente: MS não foge às perguntas, não as ilude ou rodeia, mas também não se entrega todo nas respostas. Não é que fiquem coisas escondidas, mas as respostas parecem sempre salvaguardar uma certa distância entre o MS público, a ‘popstar’ como lhe chamou o Andy Warhol (epíteto que na altura o irritou muito, mas com o qual o MS diz, com ironia, que hoje concorda), e o homem privado que dá ânimo à fantasia. Por isso, é nítido (dir-se-ia que é legível) que é o MS que esta nas respostas, mas que não é o MS todo que lá está. E uma tal capacidade de gerir a entrevista, e logo uma entrevista a uma revista tão conotada, só pode ser sinal de uma grande inteligência.
Tudo isto se torna mais óbvio, e mais perigoso, na parte da entrevista em que se discute a sexualidade de MS. Aliás, esta parte da entrevista começa logo com o MS a dizer que conhece a Attitude, e que a compra. O que é um sinal que ele está a passar de que não está distraído, que sabe perfeitamente do que estamos todos a falar, ou, para o caso tanto faz, a não falar! Depois, acede, com humor, a responder a questões que abordem o assunto, o que reforça a ideia de que ele, e nós todos que estamos a ler, sabemos ao que vimos. Não ilude as perguntas, mas também não dá as respostas muito directas, nunca responde exactamente aquilo que se estava à espera que respondesse. Nunca é óbvio, apesar de ser sempre transparente. E que acaba, de uma forma humorada, descontraída, e natural, com uma confissão acerca do estado actual da sua vida amorosa.
Ou seja, o Michael Stipe mostrou que sabia que estava a brincar com o fogo, e mostrou que sabe como é que se brinca com o fogo. Ficamos sempre um pouco mais aliviados, quando estes tipos muito estrelares, por quem temos uma grande admiração, demonstram que afinal são pessoas a sério, são pessoas normais, pessoas capazes de lidar mesmo com os seus estilos de vida perigosos e muito comburentes. E quando acontece eles até estarem do mesmo lado do desvio que nós estamos, a alegria ainda é maior.
Tags: música
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