miguel (innersmile) wrote,
miguel
innersmile

os livros em 2003 - parte 2

Quanto aos restantes livros que marcaram o ano, comecemos pelo princípio. E o principio, em literatura, é a Odisseia, de Homero, a que a tradução de Frederico Lourenço (na Cotovia) devolveu o prazer da poesia.

Ainda na poesia, marcou o ano a descoberta da poesia de Daniel Faria (na Quasi, mas também na Fundação Manuel Leão). Há milagres em relação aos quais chegamos sempre com a sensação de que chegamos demasiado tarde. Esta poesia é um fulgor, um fogo que arde na noite, mas que não nos resgata de todo da sensação de perda que nos percorre: houve alguém que detinha a chave dos segredos, e que deixámos morrer; agora resta-nos a sua poesia, lida como uma espécie de arqueologia da revelação.

Outro livro que me acompanhou como um espelho: Fabrizio Lupo, de Carlo Coccioli (na Cotovia). É um livro fortíssimo, de certa forma um livro que já não se usa, datado, mas que se lê, que eu li, com a sensação de estar a ler a geografia da palma das minhas mãos.

Nunca li a poesia de Manuel António Pina, que só conheço avulsa e desgarrada, e que será uma das resoluções de ano novo (ao menos que tenham um sentido de utilidade, não é?). Mas li este ano ‘Os Papeis de K’ (Assírio & Alvim), e que é um divertimento, leve e profundo como os verdadeiros divertimentos, fantástico e sublime, a provar que a grande literatura não é necessariamente a que tem o programa mais ambicioso.

Mais um romance do Frederico Lourenço, À Beira do Mundo (Cotovia), a fechar a trilogia que começou com ‘Pode Um Desejo Imenso’ e prosseguiu com ‘O Curso das Estrelas’. Eu sei que nestas coisas não faz sentido ser muito categórico, mas apetece-me dizer que, por muitas e variadíssimas razões, estes três volumes do FL podem muito bem ser os livros de que eu mais gostei na vida!

Mais um Calvino, ‘As Cidades Invisíveis’ (Teorema). Ler o Calvino é um projecto de vida, um projecto para a vida. assim, para ir lendo de forma a nunca se apagar dentro de nós o efeito milagroso, divertido e fantástico (e terapêutico, já agora) da prosa de Calvino.

Ainda na Assírio, uma recolha (póstuma) de poemas de Fernando Assis Pacheco, ‘Respiração Assistida’. Acho inacreditável o pouco que se conhece e valoriza a poesia de Assis Pacheco. Um dia destes, vai ser descoberto como uma das mais fundamentais vozes da poesia portuguesa da segunda metade do século passado. Tanto mais que é daquelas poéticas que estão sempre em sintonia com o tempo presente, mas simultaneamente contém o fôlego que as transportará para o futuro.

Já quase no fim do ano, um romance que é, ao mesmo tempo: 1 – o livro mais divertido do ano: 2 – um retrato cáustico e impiedoso deste Portugal que (ainda?) não sabe muito bem o que é ser uma nação ocidental e moderna; e 3 – uma lição de português, um exercício brilhante do domínio literário da língua. Trata-se de ‘Fantasia Para Dois Coronéis e Uma Piscina’ (Caminho), de Mário de Carvalho. Nas mãos de MdC, a língua portuguesa é uma língua vivíssima, ao mesmo tempo ancestral e moderna, rica ao ponto de parecer um tesouro barroco.

Os livros escritos em português que se dedicam, sem dissimulações, a temas de ressonância gay ou lésbica, começam a aparecer, tímida mas corajosamente. Começa a encher a estante, o número de livros nacionais que poderemos identificar como sendo lgbt. Ainda que, nalguns casos, os próprios autores reneguem essa classificação. Mas, se me parece justo não condicionar um livro ao rótulo, sempre limitador, de literatura gay, já me parece perfeitamente aceitável recomendar, ou mesmo anunciar, determinado livro como apelando particularmente ao interesse de leitores gays ou lésbicas. Para além do já referido livro de Frederico Lourenço, dois outros livros, ambos editados pela Dom Quixote, abordaram este ano a temática das relações entre pessoas do mesmo sexo, sem rebuço e com interesse: ‘Olhos de Cão’, de Daniel Skramesto, e ‘Os Sinais do Medo’, de Ana Zanatti. Claro que é justo dizer que esta presença ‘queer’ apenas é novidade na prosa, uma vez que a poesia escrita em Portugal sempre se deixou permear, de forma mais ou menos dissimulada, mas em todo o caso assinalável, pelo ‘amor que não ousa dizer o seu nome’. Disto também se dá conta num notável ensaio que a Angelus Novus publicou, de Eduardo Pitta, e com o acutilante título ‘Fractura – A Condição Homossexual na Literatura Portuguesa Contemporânea’.

Para finalizar, um caso aparte. Um livro que se lê como uma fogueira, que nos arde nos olhos. Um livro para se ver, porque apenas com os olhos assim em chamas se podem ler as palavras que não estão lá escritas. Falo das fotos de Paulo Nozolino, que a Frenesi publicou com o título ‘Nuez’, com poemas de Rui Baião.
Tags: inventários, livros
Subscribe
  • Post a new comment

    Error

    default userpic
    When you submit the form an invisible reCAPTCHA check will be performed.
    You must follow the Privacy Policy and Google Terms of use.
  • 3 comments