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os livros em 2003 - parte 1

O ano dos livros foi dominado, desde logo, e no seguimento da ida a Moçambique, pela descoberta e pelo fulgor da literatura, em especial da poesia, moçambicana. Há muitas maneiras de nos relacionarmos com a vida, com o mundo, com os outros. E escolhermos relacionarmo-nos através dos livros, não é uma maneira de mediar a realidade, é antes uma maneira de guardar essa realidade, as impressões, as fantasias, as imagens mais fortes, os sentimentos e as emoções mais arrebatadoras. É uma maneira, em suma, de guardarmos o que vivemos com as palavras que somos incapazes de pronunciar e que roubamos aos poetas. Sim, porque a poesia é sempre uma maneira de nos apropriarmos das palavras dos outros para dizermos aquilo que precisamos de expressar.

Entramos num restaurante amplo e simples, com uma varanda traseira que se estende em quintais até ao mar. Sentamo-nos à sombra de um ‘parrô’ de palha e abrimos um livro que pegámos no percurso através da sala até à varanda. E percebemos que esse livro, o que faz, é traduzir-nos as imagens que estamos a ver naquele momento, as emoções que estamos a sentir e a viver. O livro é ‘A Ilha de Moçambique pela Voz dos Poetas’, uma colectânea de poemas (e outros textos, alguns deles históricos) reunidos por Nelson Saúte, dedicados à Ilha e editados pelas Edições 70.

O tempo e o acaso são o único livro da vida, o manual de instruções. Em Abril saiu A Poesia Completa de Rui Knopfli (na INCM) e eu, que já andava em processo de releitura da sua poesia, mergulhei na poesia de RK com uma ferocidade de auto-descoberta. Acho que tudo o que fui este ano, tudo o que fui capaz de escrever, eventualmente tudo o que vai ser daqui para a frente, passa pelos versos de Knopfli. Que se junta a Reinaldo Ferreira, e passam a ser os dois os meus poetas.

A saída quase no final do ano de Albas, de Sebastião Alba (na Quasi) levou-me à releitura de este outro poeta. Não se consegue ficar indiferente à poesia de Alba, como não se consegue ficar sossegado face à sua vida, às difíceis, e quase inexplicáveis, opções de vida que tomou. Mas, claro, os caminhos dos deuses parecem-nos sempre tortuosos apenas pela razão de que não os conseguimos compreender.

A vontade de fazer À Sombra dos Palmares, apenas por prazer e para dar substância, sob a forma de homenagem e gratidão, ao meu regresso à terra onde nasci, levou-me à descoberta de livros (e sites) sobre a literatura de Moçambique. Levou-me a conhecer melhor os nomes que me são familiares desde criança mas que nunca tinha verdadeiramente lido, nomes que sempre me acompanharam mas com quem estreitei e aprofundei a leitura, nomes novos que não conhecia de todo. Noémia de Sousa, José Craveirinha, Mia Couto, Alberto Lacerda, Eugénio Lisboa, Ungulani Baka Khosa, e tantos outros. A redescoberta de ‘Nós Matámos O Cão Tinhoso’, um livro comovente, de uma transparência e lisura que nos torna melhores seres humanos, do Luis Bernardo Honwana, e que eu tinha lido quando fiz o segundo ano do Liceu, lá no longínquo Liceu de Nampula. O terceiro volume da colectânea de poesia ‘No Reino de Caliban’, organizada por Manuel Ferreira, e que é uma rara e riquíssima antologia da poesia moçambicana, coligida segundo um princípio de busca de uma identidade nacionalista e africana. Ainda no campo das antologias, ‘As Mãos dos Pretos’ (o título é ‘roubado’ a um conto soberbo do Luis Bernardo Honwana), uma colecção de contos organizada pelo Nelson Saúte, na Dom Quixote. Do mesmo antologiador, a mesma editora tem anunciado uma colecção de poemas, ‘Nunca Mais É Sábado’, aliás já prometida no blog Textos da Contracapa mas que tarda em aparecer nas livrarias.
Finalmente, dar ainda notícia de dois ensaios dedicados à poesia, ou a poetas, de Moçambique. ‘Vozes Moçambicanas – Literatura e Nacionalidade’ (Vega) é uma colecção de entrevistas feitas a escritores moçambicanos, precedidas de ensaio, de Patrick Chabal. Fátima Monteiro fez publicar na INCM, ‘O País dos Outros – A Poesia de Rui Knopfli’, a versão ‘editável’ de uma tese dedicada em absoluto à poesia de RK.
Tags: inventários, knopfli, livros, sebastião alba
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