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notas para viver com a ausência

O Público errou quando, há pouco menos de um mês, decidiu assinalar o dia 11 de Setembro repartindo a capa em duas efemérides: o segundo aniversário do ataque terrorista aos EUA e os trinta anos do golpe militar chileno. Ao fazê-lo, o Público estabeleceu uma espécie de competição, como que admitindo que, entre os dois acontecimentos, não tinha conseguido decidir qual o mais importante. Eu entenderia que o Público tomasse a decisão editorial de escolher qualquer um deles para destaque de primeira página, mas com esta solução, o Público conseguiu o impensável: humilhar as vítimas do tenebroso golpe militar de Pinochet, e ofender a memória dos que trabalhavam num arranha-céus nova-iorquino. Pela simples razão de que não achou que qualquer um deles tinha importância ou dignidade bastante para aparecer sozinho na capa!
Claro que nem me passa pela cabeça que a intenção do jornal fosse fazer qualquer espécie de equilíbrio entre os dois acontecimentos, num ex-aequo ideológico entre a direita e a esquerda, dizendo que, paciência!, têm mesmo de repartir a medalha de ouro do martírio simbólico. Mas o pior é que o efeito dessa decisão foi mesmo uma competição imbecil entre direitistas e esquerdistas, cada um deles a reclamar, de forma absurda, a propriedade do 11 de Setembro para a sua efeméride ideológica. Esta competição foi particularmente visível na blogosfera portuguesa, sobretudo naquele magma de blogs que se descobriram em Julho passado. Achei que as vítimas de Pinochet foram particularmente ofendidas e humilhadas, porque foram aproveitadas por uma série de gente que nem sequer fazia ideia de que choveu em Santiago nesse dia 11 de Setembro de 1973, e que apenas se serviram dos mortos e desaparecidos para expressar o luso anti-americanismo primário.

E porque é que vem isto à baila agora, quase um mês depois? Primeiro porque, na altura, achei toda a polémica sobre qual o 11 de Setembro que deveria ser comemorado, demasiado repugnante para ser comentada. Depois, porque chegou agora aos escaparates, ou pelo menos à estante cá de casa, um livro que, ele sim, homenageia as vítimas da ditadura chilena, sem esquecimento e sem perdão, e sem precisar de, para isso, apoucar as vítimas de qualquer outra tragédia. Falo de Luis Sepúlveda e de O General e o Juiz.
Sepúlveda é um dos meus escritores preferidos, apesar de não o reconhecer, ou até talvez por isso, um vulto maior da literatura dos nossos dias. É um best-seller, e ainda bem, porque sempre me parece mais interessante que venda muito um escritor evocativo e militante, do que toda a panóplia de lights e místicos que enchem as tabelas de vendas.
Cheguei a Sepúlveda via Bruce Chatwin e a Patagónia, mas foi uma daqueles casos de amor ao primeiro parágrafo. Depois de Patagonia Express, li tudo o que encontrei à venda: Mundo do Fim do Mundo, O Velho que Lia Romances de Amor, Nome de Toureiro, e, à medida que foram sendo publicados, Encontro de Amor num País em Guerra, Diário de Um Killer Sentimental, Historia de Una Gaivota y Del Gato Que Le Enseño a Volar (assim mesmo, em ‘chileno’) e As Rosas de Atacama. Atrás de um título patagónico, até encomendei Full Circle – A South-Amerinan Journey, só para descobrir que afinal era a tradução de Patagonia Express.

Quanto a O General e o Juiz, é uma recolha de textos de opinião que Sepúlveda publicou em vários jornais no período que se seguiu à detenção de Augusto Pinochet em Inglaterra e que, como movimento de opinião, visavam impedir que o ditador fosse “devolvido” ao Chile e à impunidade. É, como não podia deixar de ser, um livro empenhado e militante, em que a literatura cede muitas vezes o lugar ao manifesto e à denúncia. Mas Sepúlveda nunca consegue andar longe de escrever bem, de forma emocional e evocativa, contando histórias de gente de verdade, com nomes como Oscar Lagos Ríos ou Horacio Cepeda Marincovic, cuja lembrança e homenagem é talvez a única forma de lutar contra todos os esbirros e todos os compromissos que transformaram o Chile num “país sem memória”!
Tags: luis sepúlveda
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