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relatório e contas + Madame Satã + Swimming Pool

BOMBAY DREAMS
É uma super-produção, do A. L. Webber, com tudo de bom e de mau que isso possa significar: de bom, um espectáculo com um padrão de qualidade inquestionável; de mau, um certo mínimo denominador comum que possa apelar à maior quantidade de público possível.
O musical, que envolveu, em toda a sua produção e montagem, um acervo mais que considerável do talento indiano, quer da comunidade britânica quer da Índia, reconstrói em cena o ambiente, a história, a estrutura, o feerismo, a ingenuidade, o romantismo xaroposo e a exuberância exótica, de uma grande produção de Bollywood.
BD tem dois trunfos de primeira grandeza: a música de A. R. Rahman e a coreografia de Anthony Van Laast e Farah Khan. Rahman é um génio musical em qualquer parte do mundo, e ainda por cima daqueles profícuos, que escrevem (bem) à velocidade da produção da indústria cinematográfica de Bombaim. E o facto de as letras (de Don Black) não estarem ao nível da música em nada diminui a grandiosidade deste score, que doseia com perfeição a tradição da música folk, a capacidade de adesão das melodias pop e o fôlego da música clássica.
Quanto à coreografia, é um espectáculo luxuriante que enche o palco do Apollo Victoria de um corpo de baile vasto e muito dotado, a que não falta, à boa maneira de Bollywood um número dançado à volta (e dentro) de fontes verdadeiras. É a música e a coreografia que fazem com que este musical nos transporte ao longo de duas horas e meia de excitação pura.

JOSEPH AND THE AMAZING TECHNICOLOR DREAMCOAT
Foi o primeiro musical da dupla Andrew Lloyd Webber e Tim Rice, imediatamente antes de terem explodido na cena teatral mundial (ou seja, West End e Broadway) com Jesus Christ Superstar e Evita. Tanto quanto reza a história, começou com um número de 20 minutos para um grupo coral de uma escola, e, como diz o crítico da Time Out, devia ter ficado por aí. As canções são o mais ALW possível, mas a produção é competente, e é um clássico do teatro musical londrino.

SHAKESPEARE’S R & J
Foi o ponto alto desta mini temporada de teatro em Londres. R & J quer dizer Romeo and Juliet, e a peça é uma adaptação muito particular deste clássico de S. Num colégio interno exclusivo para rapazes, quatro estudantes, entre as declinações latinas e as recitações liturgicas, descobrem uma cópia escondida de um livro proibido, precisamente Romeu e Julieta de WS, e decidem, fora de horas, encenar a peça. O dispositivo cénico é muito simples: um quadrado de madeira que nunca é abandonado pelos actores. Os adereços são de igual forma escassos: duas cadeiras, uma arca, a cópia do livro e um longo pano vermelho que o embrulhava. O texto, para além da declinação em latim de ‘amas, amatis’ e de duas orações mais desenhadas que pronunciadas, é todo retirado do R & J e de um ou outro soneto (o 18, por exemplo, que começa “Que és um dia de verão não sei se diga” na tradução de Vasco Graça Moura). Através do texto de WS, estes quatro rapazes vão descobrir o mundo e vão-se descobrir a si próprios e uns aos outros. Vão aprender a não ter medo do corpo e não ter medo do contacto físico. Vão descobrir que contêm dentro de si, num estado de latência à espera de serem despertados, sentimentos violentos e intensos que tanto os atraem mutuamente como os repelem. E o mais notável disto tudo, é que tudo se passa através da construção do texto da peça a partir do texto original e do jogo cénico. E notável porque o tema da peça, desta que nós estamos assistir, não é o Romeu e Julieta de WS (não se trata de uma encenação do clássico de S) mas sim o processo de descoberta que estes quatro jovens encetam através do texto da peça de WS. A representação é enérgica e muito do sucesso do espectáculo deve-se à excelência dos jovens actores.
Simplesmente notável. Acho que foi um dos melhores espectáculos teatrais que eu já vi, e espero que a minha memória guarde o deslumbramento e a excitação que senti.

ONE IN THE STREET, THE OTHER IN THE BED
E de repente, numa tarde de Domingo, em Greenwich, numa sala de teatro, a Greenwich Playhouse, que fica instalada por cima de um pub, um espectáculo teatral que encena extractos de dois textos de Gil Vicente, o Auto da Índia e a Farsa de Inês Pereira. Teatro feito por estudantes que pretendem aproximar um certo teatro universitário (neste caso de Oxford) de um público mais vasto e, digamos, popular. Nada a dizer da produção e da encenação, mas o principal interesse residiu na possibilidade de ver como é que olhos estrangeiros, sem a nossa carga cultural, pegam num texto tão nosso. E devo dizer que, se não foram de todo evitados alguns clichés “culturais” (a selecção musical e o suporte video, por exemplo), este Gil Vicente em inglês tinha uma frescura, um despudor intelectual e uma legítima capacidade de entretenimento e diversão, que não é muito habitual nas produções nacionais, talvez pelo excesso de peso da tradição e da herança cultural.

BLOOD BROTHERS
Um musical diferente, cujo carácter apelativo (está há 15 anos em cena) reside, acho eu, sobretudo no facto de falar de ‘common people’, dos ingleses, no caso de Liverpool, da classe média e baixa, que têm de lutar pelo vida. É um musical triste, escrito (guião, letras e música) por Willy Russell, o autor das peças que estiveram na origem de filmes como Educating Rita (com Michael Caine) e Sherley Valentine, que conta a história de dois irmãos gémeos separados à nascença, a viverem nos lados opostos da luta de classes, que são amigos toda a vida sem saberem que são irmão, e que só o descobrem no dia em que, fatalmente, morrem!

E mais dois filmes:

Um brasileiro, uma surpresa inacreditável, já que nunca tinha ouvido falar nem da personagem nem do realizador. Nem, é claro, do filme! Trata-se de Madame Satã, uma bio-pic dirigida por Karin Ainouz sobre João Francisco dos Santos, “malandro, artista, presidiário, pai adotivo, preto, pobre, homossexual”. E, já agora, jogador de capoeira. Um filme rigoroso, bonito, bem feito, dominado por uma sensualidade que roça o erotismo, e que nos dá a conhecer uma daquelas personagens ‘larger than life’, cuja lenda ultrapassa, sem dúvida, a pobre matéria de que nós, comuns dos mortais, somos feitos. Um actor, Lázaro Ramos, que veste cada poro da pele da personagem e a quem devemos muita da verdade do filme.

O outro filme foi Swimming Pool, o último filme de François Ozon ( a seguir a 8 Femmes). É inegável que FO tem um domino perfeito da narrativa cinematográfica e este filme é todo ele uma demonstração do virtuosismo do realizador. No entanto, e como acontece tantas vezes com os virtuosos, não deixa de ficar na boca um certo sabor a vacuidade, não se percebendo muito bem, ultrapassado o efeito de divertimento, onde é que o filme nos quer levar. Um desempenho de Charlotte Rampling a bater-se ao nível das interpretações fabulosas do anterior filme de Ozon, e o regresso perturbante da bela e palpitante Ludivine Savignier.
Tags: cinema, teatro
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