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duas exposições

CRUEL + TENDER
O problemas das exposições da Tate Modern é que são gigantescas. Não há atenção que resista a uma sala com 60 fotografias em formato pequeno, quando essa sala é apenas uma das 24 dedicadas a outros tantos fotógrafos! E é pena porque esta exposição traz-nos alguma da melhor fotografia que se fez no século XX e, sobretudo, propõe-nos um olhar temático e retrospectivo sobre parte significativa da obra de alguns dos mais importantes fotógrafos do século, e particularmente alguns do nossos preferidos.
A lista de nomes é impressionante: Walker Evans e August Sander constituem como que os eixos ou as matrizes de onde se vão desenvolvendo as propostas desta exposição: Robert Frank, William Eggleston, Fazal Sheikh, o celebrado inglês Martin Parr, num total de, como disse, 24.
O título da exposição é adaptado de uma expressão usada por um escritor para descrever o trabalho de Walker Evans: “tender cruelty” e o sub-título da exposição enuncia o seu programa: “The Real in The Twentieth-Century Photography”. De representações do real se trata, de maneiras de olhar para a realidade, mas sempre longe dos caminhos do foto-jornalismo. E se debaixo de tal enunciado se alberga uma pluralidade de objectos fotografados, há uma evidente predominância de um olhar ‘social’, que procura retratar uma certa agonia do indivíduo perante o poder dissipador das várias ordens políticas, económicas, sociais ou, mesmo, culturais.
De todo o conjunto vasto da exposição, destaque para uma fotografia de Boris Mikhailov, da série Case History que foca a vida miserável das vítimas da rua do novo capitalismo russo. Nessa determinada fotografia, três mulheres velhas amparam, ou levantam do chão, um homem ainda jovem, de braços caídos e corpo completamente inanimado; o homem provavelmente estará ébrio, mas poderá também já estar morto. Os olhos abertos, fixos e vazios são de um azul intenso, um azul que não reproduz nada da realidade que o circunda. A expressão do seu rosto é, vista ao longe, beatífica, mas à medida que nos aproximamos e focamos melhor os detalhes (a boca, o bigode, os olhos), o sorriso desaparece e dá lugar a um vazio que espelha horror e dor. Num cenário invernoso de miséria e podridão, a fotografia reproduz, porventura intencionalmente, uma cena da paixão de Cristo, que lhe confere um imenso poder iconoclástico, mas ao mesmo tempo uma magoada e dolorosa ironia.

WOLFGANG TILLMANS
Contraponto ideal para a exposição da Tate Modern, é esta retrospectiva global sobre a obra de WT, na Tate Britain, sob o título ‘If One Thing Matters, Everything Matters’. WT é um artista jovem, premiado em 2000 com o Prémio Turner, cujo trabalho não tem estado ausente de revistas e jornais. Se o título da exposição é igualitário, esse princípio de equivalência aplica-se tanto ao objecto que a câmara procura, como aos diferentes formatos utilizados, como, e se calhar principalmente, à própria montagem da exposição, concretizada por WT - ele mesmo. Quanto à montagem, as obras apresentam-se sem o constrangimento da moldura, os grandes formatos (alguns enormes) presos com grampos, e os mais pequenos recorrendo à fita cola. Depois, as fotografias organizam-se pelas paredes das 7 salas, numa mistura de formatos, segundo um princípio de aglomeração e dispersão que é temático, mas nem sempre do modo mais óbvio. O que acrescenta ao prazer de ver os trabalhos expostos, uma espécie de aventura que é tentar detectar, em cada ‘módulo’, um princípio orientador. Quanto aos temas, WT fotografa ainda o real, mas não tanto procurando o confronto do indivíduo com a realidade (como de certa forma acontecia em Cruel + Tender), antes o modo como o indivíduo integra, adapta, transforma, incorpora o real, de forma a construir, a partir dele, uma identidade. Além disso, na sua fotografia mais ‘despersonalizada’, digamos assim, para denominar o trabalho de onde a representação física dos seres humanos não é tão evidente (mas atenção, que a fotografia de WT é sempre humana, focaliza-se sempre nas pessoas, mesmo quando elas não aparecem no campo), WT ‘brinca aos clássicos’, ensaiando novas formas de representar alguns dos temas mais clássicos da arte visual, nomeadamente da pintura, como acontece nas naturezas mortas que, recorrendo ao rigor do cânone, são sempre transgressoras.
Tags: exposições
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