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fabrizio lupo

Carlo Coccioli é um escritor de três linguas e nacionalidades: escreveu em italiano, como nasceu, em francês, quando viveu em Paris a seguir à II Guerra, e em espanhol, quando viveu (ainda vive?) no México. Na década de 50, publicou em França, 'Fabrizio Lupo', obra que só seria editada em Itália no final dos anos 70, e que está publicada em Portugal, pela Cotovia. FL é uma obra incontornável da chamada literatura gay, que descreve o imenso poder do Amor contra o preconceito profundo de que são objecto os homossexuais, contra as marcas de angústia e de culpa que esse preconceito provoca, contra o papel da religião no aprofundar desse preconceito, e contra a própria ideia da impossibilidade, por todas estas razões, do amor homossexual.

A história de Coccioli, tanto quanto me pude aperceber, é bastante confusa, no aspecto da homossexualidade. De alguma forma, FL tem uma marca claramente autobiográfica, e continha, nas suas primeiras edições, uma nota final onde estava explícito esse carácter biográfico. Nas edições posteriores, essa nota não consta, como aliás acontece na edição dos Livros Cotovia. Em sites da net, vi referências que testemunham mesmo que Ciccioli terá negado a sua homossexualidade, ou que tenha tido experiências homossexuais na sua juventude que tenham estado na origem de FL. Num dos sites mais militantes, considera-se mesmo CC um autor lamentável, que não representa a literatura homossexual contemporânea. Mas também vi referências quase militantemente 'queer' de CC, em que refere que saiu de Itália para França, no final da Guerra, por causa dos problemas que tinha por, não sendo propriamente o único escritor homossexual da sua geração, ser o único que não estava disposto a escondê-lo. Por seu lado, ao conjunto da sua obra posterior é atribuída uma grande importância no âmbito da chamada literatura católica!

Fabrizio Lupo é, como não podia deixar de ser, um livro fascinante. Excessivo, derramado, intenso, obcecado. Fabrizio Lupo, o seu herói, é daquelas personagens tão incandescentes, que não admira que se tenha queimado no fogo das suas próprias chamas.

E é um daqueles livros que retrata, a sangue, o que há de mais puro e verdadeiro na alma humana. Aquilo de que é feito o homem. E, nisso, é um espelho ao mesmo tempo verdadeiro, reconfortante e brutal.



"Aceitei-me. Estou, porém, convencido que não estás em posição de compreender o significado pleno e total desta afirmação. Embora fazendo apelo a toda a simpatia, e mesmo à compaixão, que possas sentir por mim, apelando mesmo para a piedade em sentido humano e em sentido religioso, tu não poderás entender o que significa, para um homem como eu, aceitar-se. Terei de fazer, portanto, uma longa digressão: falar-te de mim em relação à solidão. Responde-me: ser-te-á alguma vez possível conceber que, até ao meu encontro com Roberto, eu nunca, absolutamente nunca, tivesse dito uma palavra de mim, sobre mim, a ninguém deste mundo? Responde-me: serás deveras capaz de avaliar a violência a que um ser humano, em boa saúde física e com um temperamento exuberante, tem de submeter-se para calar, para calar toda a sua vida? (...) A minha mãe (...) observava-me com um olhar que... sim, sentia naquele seu olhar uma interrogação, que aumentava até ao delírio a minha vontade de abrir a boca, de falar, de contar... mas calava-me! Houve um período em que me perguntava sem rodeios: qual seria para ti o supremo bem na vida? E, também sem rodeios, respondia: conseguir dizer a alguém aquilo que sou!"



Este trecho (que vem reproduzido nas badanas da edição portuguesa) prossegue com FL a explicar que não contava, não por timidez, mas por se sentir um monstro. Suponho que esse sentimento de monstruosidade seja completamente auto-destrutivo. Mas há um sentimento abúlico e atávico que é tão ou mais paralisante e absurdo: quando não nos sentimos monstro nenhum, e até achamos que não há nada errado ou condenável ou censurável connosco, e, apesar de isso, calamo-nos. Por medo, claro, mas também por vergonha; por vergonha de nada, por vergonha dos outros, já que, por nós, não há nada de vergonhoso naquilo que somos e sentimos.
Tags: carlo coccioli, livros
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